segunda-feira, 16 de abril de 2012

BREVE COMENTÁRIO A PROPÓSITO DO ROMANCE HISTÓRICO, COM FOCO NA "HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA", DE JOSÉ SARAMAGO





Anderson Cássio de Oliveira Lopes





O chamado romance histórico é aquele que, como a designação mesma já induz a perceber, traz para a prosa literária um fato histórico ou, o que é mais comum, o tem como pano de fundo de um enredo ficcional.
Tradicionalmente, os romancistas eram bastante escrupulosos ao arquitetar romances desse gênero, adotando sempre a postura de rigor em face da verdade histórica estabelecida. Assim são, por exemplo, as obras de Alexandre Herculano. Em Eurico, o Presbítero, a ação transcorre num momento histórico sinistro para a cristandade ibérica, quando os islamitas de África invadem grande parte da península e aí instalam um domínio que perdurará por até sete séculos, a depender da cidade considerada; aqui a ficção – centrada, sobretudo, no amor infeliz e algo trágico das personagens Eurico e Hermengarda – prima por não desmentir fatos ou caracteres gerais do arcabouço histórico em que inserida. Análogo procedimento preside à trama do romance O Bobo, com a única diferença residindo na circunstância de que, neste, o pano de fundo histórico é a pugna familiar que culmina na criação do reino de Portugal, a partir do Condado Portucalense, com o cetro à mão de D. Afonso Henriques. Iguais dizeres cabem ao romance O monge de Cister, cujo lastro histórico são os anos subsequentes à Revolução de Avis, que coroa D. João I de Portugal, mestre de Avis, contra as pretensões legitimistas espanholas. Neste cenário, não é difícil vislumbrar que Herculano esforça-se por não contrariar a tradição histórica acerca dos fatos sobre os quais constrói a sua ficção.
Modernamente, todavia, a literatura em derredor de fatos e circunstâncias históricas transformou-se, haja vista que os autores já não revelam a primitiva ânsia de respeitar mui escrupulosamente a verdade histórica, adaptando-a, criticando-a ou mesmo subvertendo-a, ao sabor de sua imaginação. É o caso de José Saramago, o qual, embora ainda empregue a História como lastro para o enredo de alguns de seus romances, fantasia acerca dos mesmos fatos, contesta-os, critica-os, reescreve-os, de tal modo que esse lastro passa a ser um fio por vezes assaz tênue, pelo qual não sem dificuldade se distingue ficção literária de História. Ilustremo-lo com a obra História do Cerco de Lisboa, desse autor.
Neste romance, a ação flui com simultaneidade no presente (final do século XX) e no pretérito. A ação presente é marcada pela narrativa a propósito do corretor de livros Raimundo Silva e, enquanto seus passos são acompanhados pelo narrador, a partir do momento em que Raimundo faz a revisão de um livro sobre o famoso cerco de Lisboa, há uma predominância do tempo cronológico. No que concerne, porém, à narração remetente ao passado histórico (na qual o tempo literário é basicamente psicológico, transcorrendo em idas e vindas intermitentes, ao sabor dos pensamentos, lembranças e apontamentos de Raimundo Silva), focam-se os dias relativos ao sítio e tomada da cidade Lisboa aos muçulmanos pelos portugueses, então liderados por Afonso Henriques, dito D. Afonso I de Portugal. Esse tempo psicológico é complexo justamente porque não flui com a regularidade de um relógio ou calendário, mas sem linearidade e aos saltos. Este procedimento, contudo, nem sempre significa andamento rápido, pois esses saltos não raro têm como destino o mesmo ponto de partida, retomado inúmeras vezes, como ocorrido na altura em que a personagem Mogueime falará pela primeira vez à personagem Ouroana, iniciado aproximadamente à página 226 e retomado quase nos mesmos termos à página 328, dando ao leitor aquele esquisito estranhamento característico do déjà vu, embora sem as mesmas razões, porquanto no romance o diálogo era realmente “já visto”, o que não ocorre no déjà vu, pois neste fenômeno, apensar da forte sensação de já ter visto e vivido aquilo, temos a certeza de que tal fato nunca acontecera.
Saramago, estabelecendo no romance uma contraposição entre tempo cronológico e tempo psicológico, reforça a oposição essencial entre presente e pretérito. Por outros termos, um dos pontos altos da criação literário de Saramago, na trama ora sob exame, manifesta-se na requintada proporção temporal, em que, por um lado, o tempo cronológico está para a ação presente à mesma medida que, por outro lado, o tempo psicológico está para o passado. E nem poderia ser doutra forma, uma vez que o passado subsiste apenas como concepção mental do ser humano. Toda a nossa relação com o pretérito é intelectual e, portanto, psicológica, de modo que o passado é função de recordações desde o presente. Só o que há, em verdade, é o presente, o agora, este instante que passa continuamente e no qual tudo se realiza.
Impende registrar que não se explicita a época exata em que transcorre a ação presente do romance, mas deduz-se, pela menção a tecnologias da era da computação, que se trata do quartel final do século XX, o que pode ser comprovado pela seguinte passagem:

...estão faltando no seu tombo as tecnologias da informática, mas o dinheiro, desgraçadamente, não chega a tudo, e este ofício, é altura de dizê-lo, inclui-se entre os mais mal pagos do orbe. Um dia, mas Alá é maior, qualquer corrector de livros terá ao seu dispor um terminal de computador... (p. 26).

O narrador do romance é de terceira pessoa e, por conhecer os passos e os pensamentos das personagens, pode ser caracterizado como onisciente, posto denegue essa onisciência em passagens estilizadas e reflexivas, como a seguinte:

...com os lençóis plenamente expostos e já frios, sem vestígios da inquieta insónia, menos ainda dos sonhos que o exausto sono acabou por trazer, fragmentos só, imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves, se assim fosse acabava-se uma das boas coisas que o mundo ainda tem, a privacidade, o mistério das personagens. (pp. 121–122).

O excerto trazido à colação, por si só, não infirma a onisciência do narrador, apenas revela uma das muitas estratégias de que se vale este para seduzir e prender o leitor no laço narrativo.
Noutra perspectiva, este narrador onisciente que reconhece não saber de tudo pode ser visto como mais uma das costumadas irreverências à divindade típicas da obra de Saramago, pois de Deus diz-se que é onisciente, tal como do narrador que relata até mesmo o que vai pela cabeça das personagens, porém, tal como este, também Ele não saberia de tudo, se assim fosse acabava-se uma das boas coisas que o mundo ainda tem, a privacidade, o mistério das pessoas de carne e osso.
O espaço, de modo análogo ao ocorrido com o tempo, é complexo: geográfico no tocante à ação presente, concentrado na moderna cidade de Lisboa, mais precisamente na modesta residência da personagem Raimundo Silva, na editora em que trabalha e nas ruas que ligam um endereço a outro. Todavia, quando a narrativa volta-se à época da sua tomada pelos portugueses, o espaço é psicológico e existe segundo a projeção das imagens mentais do protagonista, vislumbradas e dadas a conhecer pelo narrador ou pelo mesmo Raimundo a partir do momento em que resolve contar uma nova história do cerco de Lisboa.
O protagonista do romance é o citado Raimundo Benvindo Silva, revisor, e é descrito parcimoniosamente como sendo um solteirão entrado nos cinquenta anos, cujas experiências pregressas são de todo ignoradas, porventura desimportantes ou quiçá insossas. “Não tem irmãos, os pais morreram-lhe nem cedo nem tarde, a família, se resta alguma, anda dispersa...” (p. 35).
A ação romanesca inicia-se com um diálogo entre Raimundo e um autor que acaba de lhe entregar para revisão uma obra de cunho historiográfico a respeito do cerco de Lisboa. Ao executar o seu trabalho de revisor, porém, Raimundo cometerá algo impensável a quem tem por obrigação corrigir os erros dos autores, que é perpetrar, com deliberação, conquanto inexplicavelmente (pois nenhum ganho lhe adviria disso, antes pelo contrário), um erro contra a verdade histórica incontroversa relativa ao sítio armado contra Lisboa pelas hostes de Afonso Henriques; erro esse que consiste em dizer que os cruzados não secundarão os portugueses na tomada de sua futura capital aos mouros.

...é evidente que acabou [Raimundo Silva] de tomar uma decisão, e que má ela foi, com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos falso prevaleceu sobre o que chamamos verdadeiro, tomou o seu lugar, alguém teria de vir contar a história nova, e como. (p. 50).

A consciência de haver descumprido o seu dever de ofício, aliada à certeza da previsível punição profissional, põe-no tenso, temeroso, de ordem a não conciliar regularmente o sono, como pode ser aferido na passagem já acima citada, extraída das páginas 121 e 122, em que o narrador, ao fornecer tais informações, nega entretanto a sua onisciência.
Esta adulteração deliberada do livro alheio, que deveria antes corrigir, mudará por completo a vida de Raimundo, embora não pelas razões esperadas. É que, chamado a explicar-se perante os superiores hierárquicos, posto que sofra alguma humilhação, Raimundo é perdoado, não se lhe sendo imposta punição disciplinar pela infração profissional praticada em prejuízo dos negócios e da boa fama da editora. No entanto, a presença na reunião de uma mulher desconhecida chama a atenção de Raimundo e, malgrado seu, perturba-lhe o espírito e o coração. Trata-se de Maria Sara, contratada para exercer o recém-criado cargo de chefe dos revisores, a quem, a partir de então, Raimundo e demais colegas de igual função estariam subordinados e deveriam submeter suas revisões. A ela competiria zelar para que não se repetissem equívocos da natureza daquele cometido por Raimundo, intencionais ou não. E é ela igualmente quem, na primeira oportunidade em que conversa em reservado com Raimundo, incita-lhe a escrever uma nova história do cerco de Lisboa, na qual efetivamente os cruzados recusassem auxílio aos portugueses.

...foi tudo isso, repito, que se condensou na sugestão que decidi fazer-lhe, E que é, A de escrever uma história do cerco de Lisboa em que os cruzados, precisamente, não tenham ajudado os portugueses, tomando portanto à letra o seu desvio, para empregar a palavra que lhe ouvi há pouco... (pp. 109–110).

Raimundo, assim incitado, põe mãos à obra e começa a escrever a nova história do cerco de Lisboa, despreocupado já da verdade estabelecida, não só quanto à participação dos cruzados como também quanto aos discursos do rei e outros pormenores, adaptados tanto na forma quanto no conteúdo. Para incrementar a ficção, nela inscreve Raimundo as personagens Mogueime e Ouroana, par romântico da nova versão da história, com inspiração em si mesmo e em Maria Sara.

Mogueime aproximou-se da mulher [Ouroana], a alguns passos, sentou-se numa pedra, a olhar. Ela não se voltou, tinha-o visto de relance quando ele vinha, reconhecia-o pela figura e pelo jeito de andar, a condizer, mas ainda não sabia como ele se chamava, apenas que era português, numa ocasião ouvira-o falar galego. O mover cadenciado das ancas da mulher perturbava Mogueime. Aliás, trazia-a de olho desde que o cavaleiro morrera, e mesmo muito antes, mas um soldado raso, de mais a mais medieval, não se atreveria a andar de pé-de-alferes com a mulher do próximo, ainda que barregã. (p. 226).

Esta cena fica como que suspensa, a narrativa prossegue em dias anteriores à morte do mencionado cavaleiro, fidalgo alemão que roubara, de passagem pela Galiza, Ouroana à família. A cena será retomada próximo ao final do romance, quando, num diálogo simples e lacônico, ambos ajustam vida comum.
A partir da altura na qual Raimundo acede à sugestão de Maria Sara e começa a nova história, a ação romanesca assume dois planos mais positivos, uma vez que de início a narrativa concentra-se no presente, com esparsas alusões ao citado Cerco: um que persiste a tratar de Raimundo e seu interesse crescente pela nova diretora; e outro situado na Lisboa moura prestes a fazer-se cristã pela guerra.
No entanto, ainda prevalece o primeiro plano e Raimundo, tímido e um tanto acovardado, mostra-se incapaz de tomar iniciativas no que concerne a Maria Sara, a qual, mais resoluta e desenvolta, resolve telefonar-lhe. Não o encontrando em casa, deixa-lhe recado. Conversam no dia seguinte por telefone e ela, como sempre, releva-se mais decidida e incisiva, abrindo-se em primeiro lugar:

...Nada conheço de sua vida particular, se é, Casada, Sim, ou, De qualquer maneira comprometida, como antigamente se dizia, Sim, Imaginemos que sou realmente casada, ou que tenho um compromisso, impedi-lo-ia isso de gostar de mim, Não, E se eu fosse realmente casada, ou tivesse outro compromisso, impedir-me-ia isso de gostar de si, se tal tivesse de acontecer, Não sei, Então tome nota de que gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade, Ouça, Maria Sara, Diga, Raimundo, mas antes fique a saber que sou divorciada há três anos, que acabei há três meses com uma ligação, que não comecei outra, que não tenho filhos, que quero tê-los, que vivo em casa de um irmão, que a pessoa que o atendeu é minha cunhada...(p.238).

Neste ponto cumpre ressaltar o tipo de personagem masculina que amiúde protagoniza os romances de Saramago. Raimundo é inibido, solteirão, no limiar do terço final da existência, inseguro e inexperiente em matéria de mulheres (exceto um ou outro intercurso pago) e sem nenhumas perspectivas amorosas. Seu passado é uma grande inanidade que faz o leitor conceber uma prolongada insipidez rotineira. Com exceção do princípio de velhice, é a mesma situação de Mogueime. Em Todos os Nomes, As Intermitências da Morte, Memorial do Convento e em outras obras de Saramago o protagonista possui perfil muito semelhante ao deste Raimundo Silva. Invertendo o procedimento dos romancistas do Romantismo, que idealizavam as heroínas, o homem saramagueano é que é idealizado no sentido da pureza, da castidade e da límpida capacidade para o amor, depurada por uma elástica privação sexual. Suas heroínas, ao contrário, são arrojadas como esta Maria Sara, experimentadas em relacionamentos, com ou sem maiores compromissos, antes de entrarem em cena, mas têm o coração perfeitamente lavado, perfumado e disponível quando encontram o protagonista do romance, presumível homem do resto de suas vidas.
O narrador esmera-se na descrição poética das primeiras carícias e passos amorosos de Raimundo e Maria Sara. Vale destacar um excerto do relato dessas primícias:

...parecia que o mundo exterior se pusera à espera de um milagre novo, porém ninguém deu por ele quando aconteceu, aqui, quando os sexos destes dois se sentiram pela primeira vez, quando pela primeira vez gemeram juntos, quando surdamente gritaram, quando todas as comportas do dilúvio se abriram sobre a terra e as águas da terra, e depois a calma, o largo estuário do Tejo, dois corpos lado a lado vogando, de mãos dadas, um diz, Oh, meu amor, o outro, Que nada no futuro seja menos do que isto, e de repente ambos tiveram medo do que disseram e abraçaram-se, o quarto estava escuro, Acende a luz, disse ela, quero saber se isto é verdade. (p. 295).

São páginas de poesia amorosa em prosa. Há romantismo e sentimentalismo nesse enlace, embora modernizado e com liberdade sexual. Consumado o amor de Maria Sara e Raimundo, este agora se dedica com seriedade e persistência à finalização da nova história do cerco de Lisboa, reportando as estratégias militares, o sofrimento da população moura sitiada e na iminência de ser dizimada, a proeminência adquirida por Mogueime na rebelião dos soldados portugueses em busca de justiça e igualdade de condições com os estrangeiros na divisão do espólio da cidade a ser conquistada, em suma, o romance encerra-se quando Raimundo, já numa íntima familiaridade com Maria Sara, dá por acabada a sua obra de reinvenção histórica.


REFERÊNCIA

SARAMAGO, José. História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras. 1989.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

TRÊS TRABALHOS: 1) O LAÇO DE FITA: A DANÇA COMO SINTAXE DA SEDUÇÃO ROMÂNTICA; 2) NELSON RODRIGUES: SUGESTÃO E MALDADE EM HOMEM FIEL; 3) A PRESENÇA DO ADVÉRBIO EM TEXTOS JORNALÍSTICOS BARREIRENSES


O LAÇO DE FITA: A DANÇA COMO SINTAXE DA SEDUÇÃO ROMÂNTICA





Anderson Cássio de Oliveira Lopes[1]


Este trabalho tem como enfoque a relação inter-semiótica que aproxima artisticamente a dança e a poesia, em especial como se apresenta no poema O Laço de Fita, de Castro Alves.
De uma maneira geral, a dança acompanha a humanidade desde épocas pré-históricas, e mesmo tribos indígenas isoladas na floresta já praticavam rituais religiosos permeados de elementos dançantes. Analogamente, muitos animais, em especial aves e insetos, executam movimentos coreográficos relacionados ao acasalamento, de tal modo que, para a constituição da dança, há o concurso de traços culturais e biológicos.
Na cultura Ocidental, desde os poemas homéricos, passando pela Bíblia (a performance de Salomé para convencer Herodes a executar João Batista) e chegando finalmente aos artistas contemporâneos, a dança jamais deixou de fazer-se presente, embora aludida sob diferentes perspectivas. Mas foi a partir do século XIX que artistas como Mallarmé e teóricos da arte promoveram uma aproximação sistemática entre poesia e dança, entrelaçando as duas artes tal como se enlaça no salão ou no palco um casal de dançarinos. Enlace tanto mais propício quanto mais essas duas linguagens artísticas compõem-se com lastro em movimentos rítmicos de exploração plástica do espaço, de maneira a comunicar ao espectador-leitor um efeito estético pela regular confluência imagética proporcionada pela animação do corpo do bailarino ou pela sequência linguística poeticamente disposta.
Assim, o poema pode ser visto como um corpo linguístico em movimento, ao apresentar formas ritmadas que se superpõem para produção de imagens a ser capturadas pelos olhos do espírito e para a exploração não apenas do espaço do papel, mas também, e principalmente, do espaço da imaginação, em que o belo é fruído na imanência da forma poética. Por seu turno, a dança pode ser concebida como uma poesia do corpo que se movimenta numa linguagem especial, com rimas de leveza e suavidade, alternando, com ritmos de fluida plasticidade, reflexos ora mais tônicos e fortes, ora mais átonos e delicados.
Nesta senda, da mesma forma que se concebe a poesia como a dança poética dos signos linguísticos, pode-se configurar também a dança como uma espécie de sintaxe do corpo humano em movimento, num perfeito encadeamento morfológico de gestos, posturas e atitudes. É o que se passa em O Laço de Fita, poema objeto desta análise.
Antes de passar ao poema, porém, é oportuno travar conhecimento com a valsa, que é ao mesmo tempo um gênero musical e um tipo de dança de salão, de perfil clássico e erudito, surgido possivelmente no século XIII, tendo grande penetração na alta sociedade da centúria seguinte e além. A origem da palavra valsa remete ao alemão waltzen, que significa dar voltas – rodopios que, no andamento rápido (há ainda o lento e o moderado), chegam a produzir vertigens no par, notadamente na dama, como ocorrido a Aurélia Camargo, ao dançar uma valsa veloz com Fernando Seixas, na belíssima cena de baile presente na célebre Senhora de Alencar.

O Laço de Fita


Antônio Frederico de Castro Alves


Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos de moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh’alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos, Ó laço de fita.

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas... Teu laço de fita.

Mas ai! Findo o baile, despindo os adornos
N’alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c’roa... Teu laço de fita.

O próprio signo do laço de fita, presente no título e martelado em todos os quartetos do poema, é, por uma construção metonímica especial chamada Sinédoque, a representação mesma do corpo da amada, corpo que será envolvido pelo “eu” poemático, numa valsa ansiosa e palpitante. Notável, aliás, é a poética materialização progressiva do “abraço” do par romântico, para cuja consecução o poeta serve-se da exploração do campo semântico de inúmeros termos, a exemplo de prendi, duas vezes pronunciado na primeira estrofe; qu’enlaça e enroscava-se, destacados no segundo quarteto; prisioneiro, na terceira e cadeias e elos, na quarta estrofes ­– tudo disposto de tal forma, que a imagem poética do abraço (em função do qual o “eu” lírico, enquanto valsa, descobre-se definitivamente “acorrentado” à amada) vai sendo cristalizada na retina do leitor.
Para além disso, todavia, enveredando-se pelas possibilidades outras ofertadas pela polissemia típica do fazer poético, o laço de fita é também a imagem projetada do casal enlaçado no momento da valsa, o próprio par se enrosca suavemente como um laço de fita, de tal modo que o poema permite-nos ver o “eu” lírico preso nos instantes de enlevo em que valsava com a formosa Pepita. É ainda o laço de fita a serpente que enlaça e enrosca, que encanta a quantos lhe contemplem a beleza envolvente e sedutora, serpente que simboliza a descoberta e a revelação do amor e do seu fruto proibido – a que a dança associa-se como elemento de sedução e desejo que toma parte no ritual de corte e conquista.
Conquista que prossegue enquanto se dança no compasso binário da valsa, leve como as penas rutilantes nas quais repousam os anjos, leveza dançante simbolizada também pelas asas azuis das borboletas, pela alusão aos astros que se equilibram nas distâncias insondáveis, aos pássaros que voam pelos ares assim como o casal voa pelo salão, enlaçado, num instante que parece infinito porque incorporado ao momento atemporal do requestar amoroso. Momento em que, valsando com a amada, o “eu” lírico sente-se no baile como no Céu, sensação paradisíaca inferida pela referência a Deus, ao azul cerúleo (opala), aos anjos e astros.
O Laço de Fita é uma valsa dançada amorosa e linguisticamente, valsa que segue num crescendo alusivo, até ganhar corpo por completo neste sublime verso: Na valsa que anseia, que estua e palpita. Neste mágico momento de transubstanciação artística e poética, já não estamos apenas diante de palavras postas no papel, mas diante de signos que, sem deixar de ser linguísticos, tornam-se “dança em ato”, mercê de seu ritmo de orquestra, de sua sequência musical de sílabas átonas e tônicas, de suas pausas estratégicas e típicas das valsas austríacas. Então, nós outros, os leitores, vemos ambos a dançar, pressentimos-lhes os corações palpitantes, testemunhamos a tremura da moça ao sentir-se beijada (Por que é que tremeste?), os peitos a arfar em rodopios febris e estuosos, sob o influxo das notas sonorosas extraídas aos violinos – tudo por virtudes da aproximação coreográfica entre os movimentos corporais do par dançante e os movimentos rítmicos dos signos linguísticos constituintes do texto poético.
Mas a dança, como ritual de conquista que também é, não pode findar-se no salão juntamente com a música, pois é independente desta. A dança amorosa deve continuar até à alcova, para a qual o “eu” lírico desejoso projeta a sua imaginação, capturando visualmente o instante em que a amada despe-se, sob o testemunho exclusivo da vela ciosa... Desaparecem as luzes fortes do baile brilhante, que cedem lugar ao sensual tremeluzir da vela crepitante e ciumenta.
No romantismo, porém, amor e morte implicam-se mutuamente. O “eu” poético segue, pois, a sua projeção visual do futuro, a cova para si aberta e entrega-se-lhe sem maiores inconformismos, desde que coroado pelo amor da amada, simbolizado no laço de fita.
Sintaxe da sedução romântica, é no enlace da valsa poética, dançada linguisticamente, que se articulam os signos da conquista amorosa.



NELSON RODRIGUES: SUGESTÃO E MALDADE EM HOMEM FIEL

Anderson Cássio de Oliveira Lopes


Resumo

Neste artigo, discutem-se elementos das teorias da pós-modernidade, com fulcro na análise do conto Homem Fiel (s/d anexo), de Nelson Rodrigues. Divulga-se uma investigação sobre algumas possibilidades de construção de sentido literário, possibilidades essas amparadas no exame da referida obra, com observância da estética literária, da tensão textual, das evocações produzidas pela escolha vocabular e do comportamento e psicologia das personagens. Aborda-se ainda a conceituação de conto literário.

Palavras-chave. Pós-modernidade. Conto. Construção de sentido.

Introdução

A história da literatura demonstra que a estética verbal padece – e alimenta-se, simultaneamente – da periódica necessidade de ruptura e renovação, evoluindo numa espiral que sempre rechaça valores recentes, retoma antigos e, numa síntese entre o rompimento e a recuperação de procedimentos literários, projeta novas fórmulas, novos padrões estéticos consentâneos com o novo contexto histórico. Nessa espiral, se o novo nunca é cem por cento novidade, antigos valores tampouco são retomados tais como foram, senão tais como se apresentam ao olhar renovado do artista atual e da sociedade que avança e modifica-se.
Nelson Rodrigues encerra em si e em sua produção literária esse paradoxo da busca do novo, combinada com pitadas de reacionarismo. Se, por um lado, escandalizou os seus contemporâneos ao pintar, em cores vivíssimas, assuntos considerados como tabu, por outro, essa mesma pintura irradiava uma denúncia contra a corrupção de costumes e a perversidade geral que permeavam a sociedade, num discurso que, de um modo indireto e bastante sutil, reveste-se do elogio de supostos antigos valores saudáveis e corretos.

1. O conto no pós-modernismo

O conto é um gênero textual de largo lastro histórico. Já era praticado, em sua modalidade oral, ainda em tempos pré-escrita. Mesmo sem a técnica designação literária de “conto”, diversos textos podem ser assim considerados, a exemplo de passagens bíblicas – como a que narra o episódio do filho pródigo – ou de histórias como as das Mil e Uma Noites.
Embora presente em todas as épocas e lugares, foi a partir do século XIX que o gênero ganhou grande impulso e ainda maior destaque na literatura universal, despontando contistas geniais como Machado de Assis, Guy de Maupassant, Edgar Alan Poe, Anton Tchekhov, dentre tantos outros. Desde então, críticos literários de diversos quilates têm-se debruçado sobre o gênero e, sob distintos referenciais teóricos, tentado delinear as características gerais e estruturais do conto. Segundo Massaud Moisés (2003:40), brilhante crítico literário nacional, o conto se caracteriza pela unidade temática e de conflito, pelo número reduzido de personagens e por ser uma história curta, perfeitamente acabada e, ipso facto, não passível de ulteriores desdobramentos:

O conto é, pois, uma narrativa unívoca, univalente: constitui uma unidade dramática, uma célula dramática, visto gravitar ao redor de um só conflito, um só drama, uma só ação. Caracteriza-se, assim, por conter unidade de ação, tomada esta como a seqüência de atos praticados pelos protagonistas, ou de acontecimentos de que participam.

A reunião de todas essas unidades constitutivas do gênero conto, fá-lo desembocar em algo que é o resumo de todas elas: a unidade de assunto. O conto, diferentemente da novela ou do romance, não discute inúmeros assuntos, mas apenas um, de tal maneira que o fato de a história ser curta é antes acidental que de essência, apenas corolário desta unidade fundamental. Novamente Moisés (2003:42):

O conto constitui o recorte da fração decisiva e a mais importante, do prisma dramático, de uma continuidade vital em que o passado e o futuro guardam significado inferior ou nulo. Os protagonistas abandonam o anonimato no momento privilegiado, de modo que o tempo anterior funciona, quando muito, como germe ou preparativo daquele instante em que o destino joga uma grande cartada. O tempo subseqüente se tinge de equivalente coloração: o futuro é previsível ou fácil de vaticinar, seja porque definido pela morte ou solução correspondente, seja porque os atos a praticar e os gestos a descrever foram determinados por aquele hiato dramático, seja porque os figurantes, depois disso, regressaram à primitiva obscuridade, não apresentando suas vidas nada digno de registro. Elimina-se, assim, a hipótese de continuarem no palco dos acontecimentos.

Isso é o conto do ponto de vista mais canônico, por assim dizer, tradicional. No pós-modernismo, porém, ele deixou de ser elaborado, necessariamente, segundo uma fôrma assim tão fixa, embora não raro a ela se amolde à perfeição. Uma das características do pós-modernismo é justamente pleitear a total liberdade no que diz respeito ao tema e à estrutura do produto literário. Já não é apenas uma quebra na linguagem formal e no aspecto externo e visual, como propunham os modernistas. A linguagem formal, em muitos sentidos, é até retomada no pós-modernismo. A quebra agora é mais profunda, abrange conteúdo e estrutura interna. Já não há assuntos proibidos ou não literários: no pós-modernismo nada é proibido e tudo é potencialmente literário, a depender apenas da forma, do como o tema é tratado. Para ilustrar, tome-se o conto Copromancia, de Rubem Fonseca, o qual traz como referente principal as fezes. Neste conto, pode-se postular, numa análise crítica, que as fezes, mesmo sendo normalmente um repulsivo produto do nosso metabolismo, protagonizam a história, a qual não deixa de ostentar valor literário, mercê do tratamento estético-formal que lhe dera o contista.
A obra de Nelson Rodrigues insere-se neste contexto. Seus contos por vezes enquadram-se na fôrma tradicional, nos termos moldados por Massaud Moisés. Da perspectiva pós-moderna, todavia, muitos dos seus textos, outrora tidos por crônica, são agora lidos como conto, em especial aqueles reunidos sob o rótulo A Vida Como Ela É, em que participa Homem Fiel.

1. Homem Fiel

O conto sob exame inicia-se no meio de uma palestra sobre fidelidade, travada entre duas vizinhas amigas, Rosinha e Ceci. A dicotomia faz-se clara, quando cada qual toma um partido. Rosinha declara-se absolutamente convicta quanto à fidelidade de seu marido, ao passo que Ceci, fazendo recair sobre os homens uma infidelidade universal e inexorável, incute-lhe o vírus da dúvida. Já aí o narrador fornece a primeira pisca acerca do ânimo de Ceci, pois esta, ao pôr em dúvida a honestidade matrimonial do marido da amiga, tem um meio riso sardônico. Este riso forçado e sarcástico, que não chega sequer a completar-se, faz salientar na personagem Ceci certa malícia, que se sobrepõe a um possível simples desejo de comprovar sua tese na discussão.
Rosinha resiste à argumentação da vizinha, mas já agora fora picada pela desconfiança. Concebe a fidelidade como ingrediente imprescindível à sua noção de felicidade conjugal e transtorna-se à sugestão de que é traída. Sozinha em casa, tem o espírito às voltas com dúvidas e indagações quanto a se teria o marido coragem de traí-la. É mais fácil eu trair Romário do que ele a mim!, conclui momentaneamente.
Fosse como fosse, a conversa com Ceci marcara o espírito de Rosinha. Nessa passagem o narrador, que é um narrador onisciente em terceira pessoa, revela o quanto a malícia da amiga penetrara a alma de Rosinha, ainda quando passa a racionalizar a respeito do comportamento aparentemente exemplar do marido, cuja rotina ela mesma reconhece como restringindo-se ao trabalho e à vida doméstica. E torna-se tão obcecada pela ideia de uma possível traição que dificilmente pensa em outra coisa e, quando finalmente chega à conclusão de que é o marido inocente, sente irresistível necessidade de procurar a vizinha para expor-lhe as sólidas razões, fundadas no pleno conhecimento que possuía de todos os passos do marido, inclusive no trabalho: Nunca telefonei para o emprego, em hora de expediente, que ele não estivesse lá, firme como o Pão de Açú­car. Mesmo que Romário quisesse me trair, não poderia, por falta de tempo, conclui Rosinha, triunfante. Mas Ceci não cede. Para esta, Rosinha era a pior cega, pois não queria ver. Ver o quê? Não diz. Nem oferece, sequer em pensamentos acessíveis unicamente ao narrador onisciente, explicações ou motivos outros para a sua desconfiança em relação a Romário, o marido da amiga, exceto que o homem fiel nasceu morto.
No domingo, Ceci vai até a casa de Rosinha, cavaquear. Muito bisbilhoteira, percebe que Ro­mário não está. O narrador qualifica Ceci de muito bisbilhoteira e oferece mais indícios sobre a índole pouco fraterna dessa personagem. Além disso, Ceci fica radiante, ao saber que o marido da vizinha não está em casa, porque foi ao Maracanã assistir a um jogo de futebol. Era a oportunidade de voltar à carga, fustigar Rosinha com o ferrão da desconfiança. Com base apenas na sua imaginação e malícia, Ceci começa a vislumbrar a desonestidade de Romário: Pois sim! E se não for futebol? Ele diz que vai. Mas pode ser descul­pa, pretexto, não pode? Claro! A partir desse instante aumenta a tensão textual. Rosinha fica pálida diante da sugestão de Ceci e esta, percebendo na amiga o efeito produzido por suas palavras, baixa a voz, na sugestão diabólica. O narrador qualifica de sugestão diabólica a argumentação de Ceci, cuja pintura de caráter completa-se: não é apenas uma jararaca, uma lacraia, um escorpião, como dela disse Romário, ao saber da conversa entre a esposa e a vizinha (o que, naquele momento, poderia ser apenas um mecanismo de defesa do marido). É demoníaca, concentra em si toda a maldade e perfídia de uma nova serpente que magnetiza, hipnotiza, encanta e vem, sobre envenenar, induzir esta Eva incauta a cair em tentação nova, eivando-lhe o casamento de uma suspeição que poderia ser o prenúncio de uma dissolução conjugal.
A sugestão diabólica é irem juntas ao Maracanã e pedirem que chamem Romário pelo alto-falante. Se ele apare­cer, muito bem, ótimo. Se não aparecer, sabe como é: está por aí nos braços de alguma loura.  A ilação de Ceci é chocante, até ingênua, se feita para alguém com o espírito limpo, mas Rosinha, aterrorizada pela possibilidade da traição, estonteada ante o possível ruir de seu mais doce sonho – o de nunca ser traída –, não tem ânimo para raciocinar sobre o sofisma da outra, falecem-lhe as faculdades da lógica e deixa-se levar pela solércia ofídica da vizinha.
A tensão textual segue num crescendo. No caminho para o Maracanã, Rosinha acusa a vizinha de malvada, perversa, ao que esta se defende, alegando que, na verdade, está a prestar-lhe um favor. Rosinha como que já “vê” o marido com outra, sofre por antecipação, num intenso arrepio de pavor, não consegue desviar o espírito desta “certeza” ­– a sugestão da vizinha queima-lhe a alma, sem piedade. Chegam. Romário é reiteradamente chamado pelo alto-falante, mas não aparece. A angústia de Rosinha está no fastígio, enquanto a “amiga”, serena e triunfante, quer apenas convencê-la de que a mulher nasceu para ser traída, que em tal acontecimento não há desdouro... Não é o caso de Rosinha, para cuja felicidade conjugal a fidelidade era o fulcro imprescindível e o esteio necessário. Sua desolação é máxima. Num instante, é como se para ela tudo desmoronasse ou perdesse o brilho. Diz o narrador: o estádio se transformava no mais desa­gradável e gigantesco dos túmulos. A palavra túmulos, posta pelo narrador neste momento, para além de intensificar o caráter sombrio da angústia de Rosinha e de associá-lo com o vazio, a ausência de sentido concreto e de vida, insinua e evoca o fenômeno da morte, mostra que, a partir deste momento, a morte está à espreita, presente, ainda quando inconscientemente, em algum recôndito do espírito de Rosinha.
Esta está para sempre convencida da infidelidade do marido. Não lhe ocorre que ele pode não ter atendido ao chamado do locutor por qualquer outra razão – um acidente, um imprevisto, a dificuldade de deslocamento nas arquibancadas ou de audição no maior estádio de futebol do mundo repleto de torcedores num jogo de domingo. A sugestão diabólica de Ceci dominara o cérebro de Rosinha. Todavia, ainda possui forças para recriminar a vizinha: Eu não precisava saber! Não devia saber!, mas não para racionalizar qual, de fato, seria a situação do marido. A dor moral de Rosinha, contudo, não faz a menor mossa em Ceci, que apenas lhe replicava, exultante e chula: “O bonito da mulher é saber ser traída e agüentar o rojão!”. O desfecho merece transcrição:

Neste momento, vão atravessar a rua. Rosinha apanha a mão da amiga e, assim, de mãos dadas, dão os primeiros passos. No meio da rua, porém, estacam. Vem um lotação, a toda a velocidade. Pânico. No último segundo, Rosinha se desprende e corre. Me­nos feliz, Ceci é colhida em cheio; projetada. Vira uma inverossímil cambalhota no ar, antes de se esparramar no chão. Rosi­nha corre, chega antes de qualquer outro. Com as duas mãos, põe a cabeça ensangüentada no próprio regaço. E ao sentir que a outra morre, que acaba de morrer, ela começa a rir, crescen­do. Numa alucinação de gargalhada, como se estivesse em có­cegas mortais, grita:
— Bem feito! Bem feito!

Para quem ver a literariedade de um texto na sua riqueza conotativa, este epílogo é literário no mais alevantado patamar. Quase nada pode ser tomado como certo, quase tudo é possibilidade.
De observar que, estando de mãos dadas com a amiga, Rosinha se desprende e corre. Por que não puxou a amiga, não a levou consigo? Por que estacaram no meio da rua, à mercê do atropelamento? O narrador nada explica. Porém, não é segredo que Rosinha já vinha acusando Ceci, recriminando-a quanto à sua perversidade e malvadeza em fazê-la “saber” da traição de Romário. Teria, pois, ao atravessar a rua, deliberado concorrer para a morte da diabólica amiga? Não se sabe ao certo, o mundo subjetivo da personagem não é investigado neste momento, mas é possível crer que sim. O comportamento de Rosinha – estacando junto com a amiga no meio da rua (o narrador não diz sequer quem tomou a iniciativa de parar), desprendendo-lhe da mão e correndo sozinha para sítio seguro, muito agravado pelo estado de ânimo em que vinha – é mais inverossímil para uma pessoa inocente, que a cambalhota de Ceci ao ser atropelada.

3. Conclusão

Em que pese ao título e aos diálogos iniciais, não se pode asseverar que a fidelidade masculina, de fato, seja o referente central do conto. O tipo de amizade existente entre as vizinhas Ceci e Rosinha, a perversidade e malvadeza que a primeira carrega em seu bojo durante todo o entrecho, passando para a outra ao final, parecem avultar como tema central da história, relegando o problema da infidelidade a um plano secundário, tanto que o narrador fornece menos elementos objetivos para se concluir pela infidelidade de Romário, de que para o leitor se convencer da culpa de Rosinha na morte de Ceci.
O epílogo surpreendente mostra a liberdade da obra pós-moderna. O narrador deixa tudo no ar. O texto não é conclusivo, tudo fica em aberto, permitindo a cada leitor tomar a posição que lhe convier. Não se sabe se Romário realmente é infiel, nem se Rosinha, em vindita pela malícia da vizinha, concorre para matá-la. Tudo “parece”. Sua reação foi clara: a trágica morte de Ceci trouxe-lhe irresistível exultação; aliás, a mesma alacridade que sentira Ceci em face da angústia experimentada por Rosinha ante a “comprovação” da infidelidade de Romário. No fim, ambas se igualam no regozijar-se com a desgraça do próximo. Desumanizam-se no sadismo. Para Nelson Rodrigues, a vida era assim mesmo e sua literatura não havia de fazer concessões.

Anexo
       
HOMEM FIEL

  Nelson Rodrigues (1912-1980)

Discutiam sobre fidelidade masculina. Rosinha foi categó­rica:
— Pois fique sabendo: eu confio mais no meu marido que em mim mesma!
Ceci tem um meio riso sardônico:
— Quer dizer que você pensa que seu marido é fiel?
Replicou:
— Penso, não, é! Fidelíssimo!
A outra achava graça. Pergunta:
— Queres um conselho? Um conselho batata?
— Vamos ver.
E Ceci:
— Não ponha a mão no fogo por marido nenhum. Ne­nhum. O homem fiel nasceu morto, percebeste? Eu te falo de cadeira, porque também sou casada. E não tenho ilusões. Sei que meu marido não respeita nem poste!
Rosinha exaltou-se:
— Não sei do teu marido, nem me interessa. Só sei do meu. E posso te garantir que o meu é cem por cento. Ai dele no dia em que me trair, ai dele! Sou muito boa, tal e coisa. Mas a mim ninguém passa pra trás. Duvido!            

BOBINHA 
        
Ceci, que era sua amiga e vizinha, não tarda a sair. Sozinha em casa, ela fica pensando: “Ora veja!”. Desde os tempos de solteira que tinha pontos de vista irredutíveis sobre a fidelida­de dum casal, em sua opinião, o único problema da esposa é não ser traída. Casa, comida e roupa não têm a mínima impor­tância. Tanto que, antes de casar com Romário, advertira:
— Passo fome contigo, o diabo. Só não aceito uma coisa: traição!
Diga-se de passagem, que o comportamento de Romário, seja como namorado, noivo ou marido, parecia exemplar. Es­tavam casados há três anos. Até prova em contrário, ele fazia a seguinte vida: da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Como amoroso ninguém mais delicado, mais terno: mantinha, em plena vida matrimonial, requintes de namorado. Estirada na espreguiçadeira, Rosinha repetia de si para si: “É mais fácil eu trair Romário do que ele a mim!”. Esta era a doce e definitiva convicção em que se baseava a sua felicidade matrimonial. De noite, quando o esposo chega do trabalho, ela se lança nos seus braços, beija-o, com uma voracidade de lua-de-mel. À queima-roupa, faz-lhe a pergunta:
— Tu serias capaz de me trair?
— Isola!
Teima:
— Serias?
E ele:
— Sossega leoa!
Então, Rosinha conta a conversa que tivera com Ceci. O marido rompe em exclamações:
— Mas é! Parei contigo, carambolas! Tu vais atrás dessa bobalhona? A Ceci é uma jararaca, uma lacraia, um escorpião! E, além disso, tem o complexo da mulher traída duzentas vezes por dia. Vai por mim, que é despeito!

CECI      
 
Fosse como fosse, a conversa com Ceci marcara o espírito de Rosinha. Escovando os dentes para dormir, surpreendeu-se fazendo a seguinte conjectura: “Será que ele me trai? Será que ele já me traiu?”. No dia seguinte, pela manhã, vai à casa de Ce­ci, que era contígua à sua. Começa:
— Não pense que eu sou boba, não. Se eu digo que meu marido não me trai é porque tenho base.
A outra, espremendo espinhas diante do espelho, admira-se:
— Como base?
Explica, animada:
— Pelo seguinte: eu sei tudo o que meu marido faz. Tudo. Entra dia, sai dia e o programa dele é este: de manhã, vai para o emprego; ao meio-dia, almoço em casa; depois, emprego e, finalmente, casa. Nunca telefonei para o emprego, em hora de expediente, que ele não estivesse lá, firme como o Pão de Açú­car. Mesmo que Romário quisesse me trair, não poderia, por falta de tempo.
Ceci suspira:
— Ah, Rosinha, Rosinha! Sabes qual a pior cega? A que não quer ver. Paciência.
A outra explodiu:
— Ora, pipocas! Cega onde? Então quero que você me ex­plique: como é que meu marido pode ser infiel se está ou no trabalho ou comigo? Você acha possível?
Resposta:
— Acho. Me  perdoe, mas acho.

MARACANÃ

Passou. Mas no domingo, depois do almoço, Ceci apare­ceu para uma prosinha. Muito bisbilhoteira, percebe que Ro­mário não está. Quer saber: “Cadê teu marido?”. E Rosinha, lacônica:
— Foi ao futebol.
— No Maracanã?
— Sim, no Maracanã!
Ceci bate na testa:
— Já vi tudo! — E, radiante, interpela a vizinha: — Você diz que teu marido ou está contigo ou no trabalho. Muito bem. E aos domingos? Ele vai ao futebol e você fica! Passa a tarde toda, de fio a pavio, longe de ti. É ou não é?
Rosinha faz espanto:
— Mas ora bolas! Você quer coisa mais inocente do que futebol? Inocentíssima!
Excitada, andando de um lado para outro, Ceci nega: “Pois sim! E se não for futebol? Ele diz que vai. Mas pode ser descul­pa, pretexto, não pode? Claro!”. Pálida, Rosinha balbucia: “Nem brinca”. A vizinha baixa a voz, na sugestão diabólica: “Vamos lá? Tirar isso a limpo? Vamos?”. Reage: “Não vale a pena! É bobagem!”. Ceci tem um riso cruel: “Estás com medo?”. Nega, quase sem voz: “Medo por quê?”. Mas estava. Sentia uma des­sas pusilanimidades pânicas que ninguém esquece. Ceci co­mandava:
— Não custa, sua boba! É uma experiência! Nós vamos lá e pedimos ao alto-falante para chamar teu marido. Se ele apare­cer, muito bem, ótimo. Se não aparecer, sabe como é: está por aí nos braços de alguma loura. Topas?
Respondeu, com esforço:
— Topo.

O ALTO-FALANTE    

Sob a pressão irresistível da outra, mudou um vestidinho melhor, pôs um pouco de ruge nas faces e dispensou o batom. Já na porta da rua, Rosinha trava o braço de Ceci. Grave e tris­te adverte: “Isso que você está fazendo comigo é uma perver­sidade, uma malvadeza! Vamos que o meu marido não esteja lá. Já imaginou o meu desgosto? Você acha o quê? Que eu pos­so continuar vivendo com o meu marido, sabendo que ele me traiu?”. E confessou, num arrepio intenso: “Tenho medo! Te­nho medo!”. Durante toda a viagem para o estádio, a outra foi se justificando: “Estou até te fazendo um favor, compreendeste?”. Rosinha suspira em profundidade: “Se Romário não esti­ver lá, eu me separo!”. A outra ralhou:
— Parei com teu arcadismo! Separar por quê? Queres saber duma? A única coisa que justifica a separação é a falta de amor. Acabou-se o amor, cada um vai para seu lado e pronto. Mas a infidelidade, não. Não é motivo. A mulher batata é a que sabe ser traída.
Quando chegaram no estádio, Ceci, ativa, militante, tomou todas as iniciativas. Entendeu-se com vários funcionários do Ma­racanã, inclusive o speaker. Rosinha, ao lado, numa docilidade de magnetizada, deixava-se levar. Finalmente, o alto-falante do estádio começou a chamar: “Atenção, senhor Romário Pereira! Queira comparecer, com urgência, à superintendência!”.
 
      O APELO       

O locutor irradiou o aviso uma vez, duas, cinco, dez, vin­te. Na superintendência do Maracanã as duas esperavam. E na­da de Romário. Lívida, o lábio inferior tremendo, Rosinha pede ao funcionário: — “Quer pedir para chamar outra vez? Por obséquio, sim?”. Houve um momento em que a repetição do apelo inútil já se tornava penosa ou cômica. Rosinha leva Ceci para um canto; tem um lamento de todo o ser: “Sempre pedi a Deus para não ser traída! Eu não queria ser traída nunca!”. Crispa a mão no braço da outra, na sua cólera contida: “Eu podia viver e morrer sem desconfiar. Por que me abriste os olhos? Por quê?”. Sem perceber o sofrimento da outra, Ceci parecia eufórica:
— Não te disse? Batata! É a nossa sina, meu anjo! A mu­lher nasceu para ser traída!
Sem uma palavra, Rosinha experimentava uma angústia. Dir-se-ia que, de repente, o estádio se transformava no mais desa­gradável e gigantesco dos túmulos. Era inútil esperar. E, então, convencida para sempre, Rosinha baixa a voz: “Vamos sair da­qui. Não agüento mais”. O funcionário da adeg ainda se incli­nou, numa cordialidade exemplar:
— Às ordens.
Ao sair do estádio, ela repetia: “Eu não precisava saber! Não devia saber!”. Ao que a outra replicava, exultante e chula: “O bonito da mulher é saber ser traída e agüentar o rojão!”. Neste momento, vão atravessar a rua. Rosinha apanha a mão da amiga e, assim, de mãos dadas, dão os primeiros passos. No meio da rua, porém, estacam. Vem um lotação, a toda a velocidade. Pânico. No último segundo, Rosinha se desprende e corre. Me­nos feliz, Ceci é colhida em cheio; projetada. Vira uma inverossímil cambalhota no ar, antes de se esparramar no chão. Rosi­nha corre, chega antes de qualquer outro. Com as duas mãos, põe a cabeça ensangüentada no próprio regaço. E ao sentir que a outra morre, que acaba de morrer, ela começa a rir, crescen­do. Numa alucinação de gargalhada, como se estivesse em có­cegas mortais, grita:
— Bem feito! Bem feito!

REFERÊNCIA


CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico: A Vida de Nelson Rodrigues. 2. ed.

FONSECA, Rubem. 64 Contos de Rubem Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

MOISÉS, Massaud. A Criação Literária: Prosa I. 19. ed. São Paulo: Cultrix, 2003.



A PRESENÇA DO ADVÉRBIO EM TEXTOS JORNALÍSTICOS BARREIRENSES


Anderson Cássio de Oliveira Lopes


Resumo

Neste artigo, divulgam-se os resultados da investigação levada a efeito nas reportagens da versão virtual do Jornal Nova Fronteira, com sede na cidade de Barreiras (BA), nas quais se analisou o emprego do advérbio e correspondentes locuções, averiguando-se se o seu uso faz ressaltar alguma peculiaridade estilística, qual a sua funcionalidade efetiva e se guarda ou não afinidade com a tradição gramatical. Discute-se também, conquanto sucintamente, a posição de gramáticos e funcionalistas.

Palavras-chave. Advérbio. Gramática. Funcionalismo. Reportagem jornalística.

Introdução

O texto jornalístico, servindo-se da função referencial da linguagem, ocupa-se prioritariamente da transmissão de informações e do relato de ocorrências cotidianas. Nos editoriais, há ainda a preocupação argumentativa. De qualquer sorte, sendo a informação a matéria-prima mesma do jornal, e tendo em vista que o seu preciso circunstanciamento reveste-se de uma relevância decisiva, o uso do advérbio influencia a própria reputação e credibilidade do jornal perante o seu público leitor, em especial se este sente que as notícias veiculadas estejam insuficientemente circunstanciadas.
Por outro lado, também é mister inquirir acerca de uma possível deliberação, por parte do veículo de informações, no sentido de persuadir e aliciar o leitor a perfilhar-se em afinidade com as posições direta ou indiretamente sustentadas pelo jornal, deliberação essa que, acaso de fato existente, pode ser obtida por meio do hábil manejamento de recursos lingüísticos – advérbios inclusos.
Resolveu-se, pois, analisar a utilização do advérbio em reportagens do Jornal Nova Fronteira, versão eletrônica, selecionadas segundo os critérios expostos no item 2 deste artigo, nas quais se procurou verificar a frequência e a posição dos advérbios nos períodos, bem assim o possível efeito produzido pelo seu emprego (ou ausência), perquirindo-se, ainda, a existência ou não de sintonia entre o uso observado e a tradição gramatical acerca dessa classe de vocábulos.

1. Da perspectiva gramatical e da funcionalista

Segundo a tradição gramatical, o advérbio (a que se equipara a locução adverbial) é a palavra que, relacionando-se notadamente com o verbo, mas também com o adjetivo, outro advérbio ou ainda com toda a sentença, denota inúmeras circunstâncias – como lugar, tempo, modo, intensidade, dentre tantas. Não é ocioso registrar a existência de vocábulos outrora classificados como advérbios, mas que, contemporaneamente, os gramáticos brasileiros vêm pondo à parte, sob a geral e provisória designação de palavras denotativas de exclusão (apenas, salvo, senão, só, somente), inclusão (até, inclusive, mesmo, também), designação (eis), realce (cá, lá, é que, só), retificação (aliás, ou antes, isto é, ou melhor), situação (afinal, agora, então, mas).
Neste trabalho, portanto, as chamadas palavras denotativas não serão consideradas como pertencentes à classe dos advérbios.
Historicamente, os gramáticos reconhecem que o advérbio tem por função primordial circunstanciar ou modificar a ação verbal, e prescrevem o seu uso no final dos períodos, admitindo-se, porém, por razões estilísticas, de realce ou de apelo enfático, o seu deslocamento na sentença, o qual deve ser ordenado e, em muitos casos, para consecução do almejado efeito, marcado por pontuação específica, em geral separado por vírgula. Alguns advérbios, entretanto, possuem regra geral diversa, a exemplo dos de negação, que devem vir antes do verbo, e dos que indicam intensidade, sempre antepostos ao adjetivo ou outro advérbio cujo sentido modificam.
De acordo com Cunha e Cintra (2001:162), “dos fatores que normalmente concorrem para alterar a seqüência lógica dos termos da oração, o mais importante é, sem dúvida, a ênfase”.
Já Cegalla (2002:484), em sua competente gramática, vai além:

Embora não seja arbitrária, a colocação das palavras na frase, em português, é muitas vezes livre, podendo variar de acordo com o tipo e o objetivo da mensagem falada ou escrita e com as circunstâncias que envolvem o ato da comunicação. No arranjo dos termos na frase intervêm poderosamente a cultura, o estilo e a sensibilidade do escritor.

Como gramático, sobre observar a grande possibilidade de deslocamento das palavras nas sentenças, Cegalla contempla também a avaliação do objetivo da mensagem (isto é, o objetivo que o emissor pretende alcançar mediante a mensagem) e o contexto em que se passa o ato da comunicação. Faz ressaltar ainda, com bastante propriedade, o quanto a bagagem cultural, a busca ou assentamento de um estilo próprio de expressão e a sensibilidade do escritor interferem na elaboração do discurso.
O mesmo Cegalla (2002:485), logo a seguir, ao sistematizar os principais fatores intervenientes na alteração da ordem normal da frase (sujeito-verbo-objeto-complementos), afirma:

São as seguintes as causas que condicionam a colocação das palavras na frase, exigindo ora uma, ora outra ordem:
1) a ênfase, a afetividade e a emoção
2) a clareza de expressão
3) a eufonia
4) o ritmo e o equilíbrio da frase

Assim, vê-se que os gramáticos citados, ao abordarem as alterações que podem ser perpetradas na ordem tradicional das palavras na sequência da frase, são abrangentes, discernindo inúmeras situações justificadoras desses deslocamentos. De resto, vê-se que não fecham os olhos para os objetivos do emissor da mensagem nem para o contexto da comunicação, caso sejam relevantes à interpretação.
Numa vertente distinta da tradicional e milenar abordagem dos gramáticos, tem-se a adventícia corrente de pesquisa do Funcionalismo, para a qual aquilo que de fato importa é deixar de lado as prescrições gramaticais e estudar o uso, o funcionamento concreto dos recursos lingüísticos em ato, tomando por lastro, também, a identificação de quem está a empregá-los (o agente do discurso), por quais razões, como e com que interesse o faz. Segundo Mussalim e Bentes (orgs. 2001:212):

Pensar a Sintaxe segundo uma perspectiva funcionalista implica, então, alargar a análise para além dos limites da sentença. Os processos sintáticos são entendidos aqui pelas relações que o componente sintático da língua mantém com os componentes semântico e discursivo. Só é possível compreender o que se passa na Sintaxe, olhando também para o contexto (texto e/ou situação comunicativa) em que a sentença está inserida. É nesse espaço ampliado de análise que se vão buscar as motivações das escolhas que o falante faz em termos estruturais.

Esse alargamento da análise proposto como novidade pelo Funcionalismo, visando a transcender a sentença e a chegar aos componentes semânticos e discursivos e, finalmente, à situação comunicativa, já é, em que pese à distinta ênfase, contemplado pelo estudo dos bons gramáticos, como antes visto.  Naturalmente, esse buscar as motivações das escolhas, presente no final da citação, pode dar – e infelizmente tem dado – margem a distorções oriundas do interesse sectário do intérprete politicamente engajado, o qual impõe ao texto motivações que, de fato, o autor jamais tivera e que existem apenas nas cabeças ideologicamente transtornadas.
Todavia, com um pouco de isenção de ânimo (algo possível apenas longe do fundamentalismo ideológico), sem dúvida a compreensão de cada sentença presente no texto – e deste como um todo – é ampliada e aprofundada, quando o contexto de inserção, o gênero textual a que pertence, a forma e a função dos termos empregados, vistos holisticamente, não deixam de ser tomados em consideração na análise empreendida, pois de fato interferem bastante no trabalho verbal realizado pelo produtor do texto, de tal maneira que, nesta pesquisa, tanto foi considerada a forma correta preconizada pelos gramáticos, quanto a função de cada advérbio em uso efetivo, salientada pelos funcionalistas.
Impende reconhecer, por derradeiro, que existe um conflito teórico explícito entre gramáticos e funcionalistas e o que os põe em campos opostos é, em essência, um remanescente espírito de rebelião juvenil destes (não às regras!), em confronto com o convicto ânimo legislativo daqueles (sim às regras!). O mais que os afastam são meras consequências disso e do ódio ideológico que muitos funcionalistas nutrem pelo caráter prescritivo das gramáticas, caráter a elas inerente desde os antigos gregos.

2. Análise do material colhido

A coleta das reportagens para análise nesta pesquisa realizou-se da seguinte forma: entre os dias 22 de julho e 22 de agosto de 2011, acessou-se o sítio do Jornal Nova Fronteira na rede mundial de computadores, especificamente a seção “notícias mais lidas da semana”, sendo, então, recolhida a matéria que estava em primeiro lugar no momento, excluindo-se as fotos. As reportagens foram a seguir ordenadas segundo a data da sua publicação e examinadas no tocante aos advérbios e locuções adverbiais, em conformidade com os objetivos traçados. Mantiveram-se o tipo da fonte, os negritos e itálicos originais e também a proporção quanto ao tamanho dos caracteres do título e do corpo das reportagens. Todos os sublinhados, todavia, são acréscimos do autor da pesquisa, feitos com o intuito de destacar alguns advérbios e locuções adverbiais.
A primeira matéria foi esta:

Prefeito de Correntina emitiu cheques indevidamente
Publicado: 21/07/2011 07:00
Matéria Lida: 425 Vezes
 O Tribunal de Contas dos Municípios, em sua sessão desta quarta-feira (20/07), julgou procedente o termo de ocorrência lavrado na 25ª Inspetoria Regional de Controle Externo (Santa Maria da Vitória), contra o prefeito de Correntina, Nílson José Rodrigues, em face de irregularidades com emissão de cheques sem provisão, no exercício de 2010.
 O relator, conselheiro Substituto Evânio Antunes Cardoso, imputou multa de R$ 3 mil ao gestor, além de fazer várias recomendações visando que novas falhas não sejam cometidas.
 A relatoria comprovou a denúncia da IRCE, constatando que entre os meses de janeiro a dezembro de 2010, o prefeito emitiu 09 cheques sem fundos, no valor global de R$ 102.015,03, gerando um prejuízo ao erário, a título de encargos bancários pelas devoluções dos referidos cheques de R$ 187,65.
 No processo evidencia o descontrole da movimentação das contas bancárias da comuna, demonstrando não haver na administração o devido controle interno.
 Íntegra do voto do relator do termo de ocorrência lavrado na prefeitura de Correntina. (O voto ficará disponível após conferência).

Nota-se que o advérbio presente no título está em sua posição normal, o que mantém uma maior visibilidade sobre o sujeito da oração (Prefeito de Correntina), tido, pois, como elemento mais relevante e merecedor de atenção.
O advérbio de negação, empregado duas vezes ao longo do texto, foi sempre anteposto ao verbo, em consonância com a tradição gramatical. No terceiro parágrafo, houve o deslocamento estilístico da locução adverbial (sublinhada), a qual, sendo relativamente extensa, deveria ser separada por vírgulas, mas o foi apenas parcialmente.
No quarto parágrafo, porém, a prescrição gramatical foi esquecida, de tal modo que a pretensa locução adverbial de lugar, No processo, deslocada para o início da primeira oração, funcionaria praticamente como uma espécie (até então inexistente na língua portuguesa) de “sujeito preposicionado”, tanto mais que a oração está construída em voz ativa verbal (e aboliu-se a regra gramatical segundo a qual o sujeito não pode ser regido por preposição). De acordo com os gramáticos, todavia, a insistir da voz ativa, o repórter deveria escrever O processo evidencia, expressão mais consentânea com a semântica das orações seguintes, marcadas pelas formas verbais demonstrando e haver.
Por outro lado, houvesse a opção por transformar evidencia em voz passiva verbal, trar-se-ia novamente No processo à condição de locução adverbial de lugar, o que daria sentido à primeira oração, mas provocaria um maior ruído semântico na sequência do período e acentuaria o seu caráter tautológico.
Numa incansável busca pelo agente que pratica a ação verbal da primeira oração do indigitado parágrafo, outra possibilidade seria, mantendo-se No processo na função de adjunto adverbial, a interpretação do sujeito de evidencia como sendo elíptico (zeugma), remetendo-se ao sujeito expresso no parágrafo anterior (a relatoria) ou nos anteriores (O relator, O Tribunal de Contas dos Municípios), o que, apesar da distância pouco usual de um ou mais parágrafos, poderia até ser plausível se, marcando o deslocamento da locução adverbial, houvesse uma vírgula a separar No processo e evidencia.
Em todo caso, levando-se em consideração as múltiplas possibilidades aventadas, esse quarto parágrafo, tal como construído, atenta contra a precisa identificação do referente, típica da função referencial da linguagem, cujo predomínio é intrínseco ao texto jornalístico. Enfim, por mais que se queira ser compreensivo, não resta dúvida quanto ao equívoco redacional do parágrafo sob exame, oriundo da má utilização da locução adverbial, erro que não afronta só um simples zelo por regras gramaticais, senão a própria inteligência da mensagem.
Veja-se a segunda matéria.

Operação Cordel Negro: Polícia prende 40 por crime ambiental

Publicado: 23/07/2011 07:47
Matéria Lida: 1480 Vezes
 Samuel Lima, Juscelino Souza e Miriam Hermes | Fonte A Tarde On Line | Foto arquivo PRF
Uma megaoperação realizada na sexta-feira, 22, resultou na prisão de 40 pessoas acusadas de envolvimento em crimes ambientais, como produção ilegal de carvão. A lista de presos inclui empresários, fazendeiros, políticos, consultores ambientais, além de funcionários e ex-servidores da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema).
 Até o fechamento desta reportagem, outros nove mandados de prisão preventiva ainda não haviam sido cumpridos. De acordo com as investigações, o esquema teria rendido aos envolvidos algo em torno de R$ 70 milhões.
 A Operação Corcel Negro foi deflagrada em Salvadorem dez municípios do interior baiano e em mais três estados, em conjunto com a Sema, Ministério Público Estadual, Secretaria da Segurança Pública, Polícia Rodoviária Federal e o Ibama.
 Na Bahia, foram 19 prisões. Apenas o consultor  ambiental baiano Gilmar Iglesias foi detido em São Paulo. Os demais foram detidos em Minas Gerais e Goiás. Segundo Eugênio Spengler, secretário estadual do Meio Ambiente, as investigações foram iniciadas há um ano, após a descoberta de irregularidades na emissão de crédito de reposição florestal.
 A Lei Estadual 10.431/06 prevê que toda pessoa física ou jurídica que use produtos de origem florestal para fins comerciais é obrigada a manter áreas de reflorestamento. Se não possuir um terreno para a reposição de árvores, pode adquirir créditos de reflorestamento com pessoas que mantêm áreas de floresta.
 Falha na lei - Spengler informou, durante coletiva na sede da SSP que foram detectadas fraudes na concessão de créditos. “Pessoas estavam recebendo os créditos sem que houvesse comprovação de que estavam mantendo áreas de replantio”, assinalou. Segundo ele, a lei estadual “possui uma falha” que contraria a legislação federal – que só concede os créditos após comprovação do reflorestamento.
 “Já está em andamento na Assembleia Legislativa um projeto de lei que vai corrigir isso”, assegurou Spengler. “Vale lembrar que não há uso de dinheiro público nas irregularidades. A questão é de mau uso da função de agente público, com fraudes em procedimentos que deveriam atender a critérios legais. Com certeza, havia corrupção”, disse o promotor Geder Gomes, do Centro de Apoio Operacional à Segurança Pública e Defesa Social do MP.
 A delegada Carmen Bittencourt, da Polícia Civil, confirmou que as prisões foram efetuadas sem incidentes. Em Salvador, foram presos Marcos Félix Ferreira, Paulo Pelegrini e Plínio Castro, todos ex-superintendentes da Sema; Luís Cláudio Correia e Rui Muricy de Abreu, servidores da Sema; e o consultor ambiental João Barrocas.
 No interior da Bahia, foram presos Ana Célia Coutinho Rocha e a filha dela, Milena Coutinho de Castro; Maria Emília Miranda, Marcelo Dourado Costa, Francisco Leonardo Bastos Vila Nova, Cássio Higino Barreto Santos, Gersino Pereira Costa, Jader Oliveira Costa, Derval Barbosa de Arruda, Florisvaldo Silva, Jorge da Costa, Francisnay Martins Neves e Abraão dos Reis Gomes.
 As identidades dos capturados em Minas Gerais e Goiás não foram divulgadas. As investigações revelaram que siderúrgicas desses estados recebiam carvão ilegal produzido na Bahia.

Observa-se o uso regular do advérbio, com alguns deslocamentos estilísticos e alguma ausência de vírgula. Houve preocupação em detalhar as circunstâncias de lugar e tempo. Alguns advérbios foram postos em evidência, no início dos períodos, assinalando-se uma ênfase ao lugar em que ocorridos os fatos, a exemplo de Na Bahia (quarto parágrafo), Em Salvador (antepenúltimo parágrafo) e No interior da Bahia (penúltimo).
De resto, a maior ênfase coube à locução adverbial Com certeza, presente no sétimo parágrafo, e posta com o fim evidente de fazer sobressair a convicção quanto à existência de atitudes corruptas, fato que, talvez mais que as prisões relatadas, justifica o interesse do jornal e da generalidade do público.
Terceira reportagem:

Pai namora com filha em Cotegipe

Publicado: 27/07/2011 13:26
Matéria Lida: 1542 Vezes


Por Nei Vilares | Fonte blog do Sigi Vilares

Na noite de ontem, 26, a delegacia de polícia de Barreiras recebeu uma denúncia informando que no povoado do Taguá, município de Cotegipe, região Oeste da Bahia, estaria ocorrendo um namoro entre pai e uma filha.
O pai, um trabalhador rural de 37 anos, casado e pai de outros filhos, estaria mantendo, abertamente, o namoro com a filha de 14 anos.
Ainda de acordo com a denúncia, o mesmo anda de mãos dadas com a menina. O pai beija a filha na frente de todos e não faz questão de esconder de ninguém.
A denúncia vai ser encaminhada para a polícia civil de Cotegipe, caso seja comprovada, o agricultor poderá ser preso e responder pelo crime de estupro.

Nesta matéria, salta aos olhos a proeminência dada ao advérbio abertamente, no segundo parágrafo. Ele não só foi deslocado na oração, mas também posto entre vírgulas, as quais obrigam o leitor a deter-se na circunstância expressa, fixando nela a sua atenção e a sua indignação – como se não bastasse o incesto (já de si repugnante), o pai tem o desplante de nem sequer o esconder. Outros advérbios (de mãos dadas, na frente de todos, etc.) reforçam e martelam a mesma circunstância, de tal modo que o incesto em si é tratado na reportagem como algo secundário (afinal, embora abominável, tal prática é recorrente), cedendo o primeiro plano à circunstância – esta, sim, para lá de extraordinária – referente ao caráter público de semelhante barbaridade.
Todo ser humano pode ser capaz de uma infâmia. Pouquíssimos, porém, farão publicidade disso – é a leitura subjacente ao emprego dos advérbios no texto analisado.
Quarta matéria:

Campus da UFBA será transformado em Universidade Federal do Oeste da Bahia

Publicado: 09/08/2011 19:37
Matéria Lida: 1556 Vezes

Texto e foto Eduardo Lena
A notícia alvissareira foi confirmada pela prefeita de Barreiras Jusmari Oliveira, na sala da presidência da Câmara de Vereadores, em reunião que contou com a presença dos 11 vereadores municipais e jornalistas de sites, blogs, jornais e rádios da cidade.
Jusmari disse que estará juntamente com o deputado federal Oziel Oliveira (PDT/BA), no próximo dia16, no Palácio do Planalto em Brasília, ocasião em que a presidente Dilma Rousseff assinará o documento de criação da Universidade Federal do Oeste Baiano, com Campi nos municípios de Bom Jesus da Lapa, Luís Eduardo Magalhães e Barra.
 “A criação da Universidade Federal do Oeste é a vitória de todas as lideranças políticas e a concretização de um antigo sonho da comunidade oestina”, disse a prefeita, informando que a partir da assinatura desse documento, será criada uma reitoria provisória composta por três servidores do Campus Edgard Santos, aqui em Barreiras, que em conjunto com um corpo técnico elaborarão o projeto pedagógico da futura Universidade Federal do Oeste, citando os cursos que poderão ser implantados, levando em conta a vocação de cada uma das regiões onde serão instalados os Campi.
A previsão da prefeita é de que em seis meses esse projeto pedagógico esteja pronto e sejam alocados recursos através de emendas parlamentares para que seja dado início nas construções dos prédios onde funcionarão os futuros Campi.
 “Agradeço a parceira com o governador Jaques Wagner que sempre se empenhou na transformação do Campus Edgard Santos em Universidade Federal do Oeste da Bahia. É a justiça social que será feita com os jovens da região Oeste da Bahia, que agora terão a oportunidade de se graduar sem necessitarem sair para os grandes centros universitários”, argumentou Jusmari, enfatizando que o próximo passo será buscar a implantação do curso de medicina em Barreiras.
 “Pode ser em universidade pública ou em faculdade particular. Não importa qual a instituição de ensino superior, o importante é oferecermos outras opções para nossos jovens”, concluiu a prefeita eufórica com a conquista, parabenizando todo o Oeste da Bahia, principalmente Barreiras, por sediar um projeto grandioso que vai mudar a qualidade do ensino na região e nos preparar para constituirmos o futuro Estado do Rio São Francisco.

Nesta reportagem, como nas demais, o advérbio foi novamente bastante utilizado para fornecer o máximo de detalhes sobre o fato noticiado (alguns até supérfluos, como no Palácio do Planalto, seguido de em Brasília). Igualmente, deixou de haver rigor no emprego da vírgula, quando do deslocamento de algumas locuções adverbiais (juntamente com o deputado...). O advérbio de negação, por seu turno, esteve sempre anteposto ao verbo, como nas reportagens anteriores.
Chama a atenção, todavia, o uso de advérbios com o claro objetivo de fazer sobressair uma pretensa diligência dos políticos da região (juntamente com o deputado...), muitos dos quais são os proprietários, os mantenedores ou os principais anunciantes desses veículos da imprensa local.
Veja-se a quinta e última reportagem selecionada.

Correntina: Dez mortos da mesma família em acidente entre Van e Bitren

Publicado: 17/08/2011 11:47
Matéria Lida: 14756 Vezes

Texto e fotos Eduardo Lena

Um grave acidente entre uma Van e um Bitren, ocorrido às 5h30 de hoje, 17, na BR 349, vitimou dez pessoas da mesma família, naturais de Santana, oeste do Estado.
O acidente aconteceu a oito Km de Correntina/, região Oeste, distante 1.006 Km de Salvador.
Segundo relatos de familiares de Carlos Alberto, motorista da Van, ele estava retornando de Brasília onde teria ido buscar familiares que residem na capital federal e em Cuiabá/MT, para participarem do velório do avô do motorista que seria realizado na cidade de Santana.
De acordo com Esmeraldo Oliveira da Silva, pai de Carlos Alberto, a família vinha acompanhando o corpo do avô, que havia falecido em Brasília e que estava sendo transportado num carro funerário.
Todos os dez ocupantes da Van morreram no local, entre elas uma criança de aproximadamente quatro anos.
O motorista da carreta sobreviveu e foi levado para o Hospital de Correntina em estado grave.
Como no local não havia sinais de frenagem, é possível que o motorista da Van tenha dormindo ou mesmo tentado desviar do bitrem, já que a batida ocorreu no lado direito de cada veículo, na pista de rolamento do caminhão.
Dois veículos do Instituto Médico Legal, (Barreiras e Santa Maria da Vitória) estiveram no local para a retirada dos corpos que ficaram presos nas ferragens embaixo da Van, que tombou lateralmente fora da pista. Os corpos foram encaminhados para o IML de Barreiras para que possam ser reconhecidos.
Devido a violência da batida, o último corpo só foi retirado das ferragens em torno das 12h
foram identificados as seguintes vítimas:
Carlos Alberto de Araújo Silva, 43 anos
Joaquim Reinaldo Galvão, 53
Armindio Lopes Galvão, 62
Talmo Galvão de Araújo, 19
Miguel Arcanjo de Lima, 50
Mario Lopes Galvão, 57
As outras quatro vítimas ainda não foram identificadas porque estavam sem documentos e estão sendo levadas para o IML de Barreiras.

Nesta notícia trágica, constata-se, por um lado, a presença abundante dos advérbios de lugar, detalhando o local do funesto acidente, o lugar de nascimento das vítimas, a origem e o destino da viagem que faziam, a região da ocorrência, a localização dos órgãos médicos para onde foram transportados os corpos. Por outro lado, verifica-se a louvável sobriedade quanto ao emprego de advérbios de modo e de intensidade, pois estes, se acaso proliferassem no texto, poderiam conferir à reportagem um caráter sensacionalista ou um mau gosto mórbido, pelo circunstanciamento do estado final a que se reduziram as vítimas – o que foi evitado pela sobriedade observada.

5. Conclusão
        
Com respaldo na análise do material colhido e tendo em vista o referencial teórico adotado, averiguou-se o amiudado uso do advérbio nas reportagens do Jornal Nova Fronteira, versão eletrônica, a denotar larga preocupação com os detalhes e circunstâncias factuais das notícias, designadamente as indicações de lugar. Houve, contudo, elogiável economia dos advérbios de modo e intensidade no relato de notícias trágicas, de tal forma que o Jornal Nova Fronteira, neste particular textual, demonstrara desinteresse na exploração do sensacionalismo e da morbidez.
No uso, verificou-se uma regular consonância com os ditames gramaticais pertinentes (a exemplo do advérbio de negação sempre anteposto ao verbo), salvo alguns casos de ausência de rigor no emprego da vírgula, para marcar o deslocamento estilístico ou enfático de algumas locuções adverbiais, e um único caso de emprego inadequado do advérbio, ocorrido na sentença constitutiva do quarto parágrafo da primeira matéria examinada.
Não se apurou a presença de advérbio em posição que, embora gramaticalmente correta, investisse, especificamente, contra a eufonia ou o equilíbrio da frase.
Vislumbrou-se ainda que o advérbio, conquanto considerado termo acessório da oração, assume por vezes função decisiva na significação do texto, como ocorrido na reportagem na qual se noticia o caso do pai que namora a filha, namoro cujo caráter público – expresso, realçado e martelado por locuções adverbiais – tornou-se o cerne da mensagem.
Constatou-se, por fim, a existência de alterações, por motivos de ordem estilística ou enfática, na posição ocupada pelo advérbio na oração, ora com o fito de chamar a atenção para detalhes relevantes da notícia, ora com o desiderato de fazer sobressair a suposta diligência e prestatividade de políticos locais.


REFERÊNCIA

AZEREDO, José Carlos de, Iniciação à Sintaxe do Português. 7. ed. Rio de Jneiro: Jorge Zahar ed., 2001.

CEGALLA, Domingos Paschoal, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. 45. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002.

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley, Nova Gramática do Português contemporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

JORNAL NOVA FRONTEIRA, Prefeito de Correntina emitiu cheques indevidamente. Disponível em http://www.jornalnovafronteira.com.br/index.php?p=MConteudo&i=3953. Capturado em 23/7/2011.
____________, Operação Cordel Negro: Polícia prende 40 por crime ambiental. Disponível em http://www.jornalnovafronteira.com.br/index.php?p=MConteudo&i=3988. Capturado em 27/7/2011.
____________, Pai namora com filha em Cotegipe. Disponível em http://www.jornalnovafronteira.com.br/index.php?p=MConteudo&i=4016. Capturado em 29/7/2011.

____________, Campus da UFBA será transformado em Universidade Federal do Oeste da Bahia. Disponível em http://www.jornalnovafronteira.com.br/index.php?p=MConteudo&i=4107. Capturado em 13/8/2011.

____________, Correntina: Dez mortos da mesma família em acidente entre Van e Bitren. Disponível em http://www.jornalnovafronteira.com.br/index.php?p=MConteudo&i=4176. Capturado em 22/8/2011.

MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (orgs.), Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.






[1] Graduando do curso de Letras da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus IX.