domingo, 27 de fevereiro de 2011

TRÊS ESTUDOS POÉTICOS

Por Anderson Cássio de Oliveira Lopes

Nos dois primeiros trabalhos divulgados neste espaço, discutimos os pressupostos da sociolinguística, a qual reputamos, tal como existe no Brasil e na cabeça dos Bagnos e Possentis, uma pseudociência, uma perniciosa infiltração da ideologia derivada do marxismo na ciência inaugurada por Saussure.
Agora, com o desiderato de aliviar a mente dos nossos eventuais leitores, cultivando-lhes a boa-vontade para conosco, damos à estampa três leves estudos poéticos (também à guisa de presente de aniversário). O primeiro, uma breve leitura da canção Nervos de Aço; depois, uma pequena e despretensiosa análise estrutural e semântica dos poemas O Navio Negreiro e I-Juca-Pirama.
São devidos os agradecimentos à prima Helaine, à querida amiga Kássia, e aos colegas Neto e Jéssica, em razão da graciosa colaboração que nos deram em alguns pontos dos estudos ora apresentados.
No que concerne à música de Lupicínio Rodrigues, há uma versão acústica interpretada por Paulinho da Viola que me agrada bastante.



Nervos de Aço – Lupicínio Rodrigues, com ligeira análise semântica

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser

Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor

A música insere-se no contexto geral das “dores de cotovelo”, que tanto êxito alcançam quando interpretadas nos diversos palcos. Em que pese aos múltiplos sentidos que podem ser vislumbrados aqui, vê-se que um homem, queixoso, interpela outro e começa a narrar-lhe os seus infortúnios de amor, fazendo-o notar quão imensa é a desventura de um homem que ama loucamente uma mulher e em seguida é obrigado a vê-la nos braços de um tipo qualquer. Numa metáfora original e hiperbólica, mencionando os nervos de aço, o desditoso amplia a dimensão do seu sofrimento, pois concebe que mesmo uma pessoa de índole férrea e coração duro e assentimental, estando eventualmente sob idêntica situação, provavelmente teria alguma reação passional. Ao final, o queixoso mostra-se desnorteado e contraditório – fato também comum aos padecentes amorosos ­– e reconhece desconhecer a natureza exata dos antitéticos sentimentos que alberga no coração (ciúme, amizade, horror), encerrando a queixa com o desvario tipicamente romântico, que deseja a dor e a morte.
É ainda de notar que o interpelado parece não ser da intimidade do queixoso, pois este o trata por “meu senhor” ao invés de “meu amigo” ou algo mais familiar. Também não se especifica o tipo de relação que o queixoso travara com a mulher amada, se eles de fato relacionaram-se, e que gênero de relacionamento foi esse, ou é um amor platônico, ideado – inespecificidade que não é sem propósito, pois o sucesso de uma música também costuma ser influenciado pelo maior ou menor número de ouvintes que se identificam com a história cantada, no que certo vago e indeterminado, alargando a margem aos possíveis entendimentos e identificações, constituem relevante recurso.
Por fim, destacamos a força e a beleza da metáfora que nomeia a música, acarretadas pela grande carga semântica condensada em poucas palavras, que fazem exorbitar o sentido de frieza e indiferença originalmente atribuído na canção e, assim, a expressão “nervos de aço” passa a designar também os indivíduos resolutos e heroicos que enfrentam e vencem, imperturbáveis, os maiores embaraços que se lhes interpõem as vicissitudes da existência – e não era outra a pretensão do então deputado Roberto Jefferson, ao aludir a esta música, no âmbito dos debates e inculpações ocorridos na Câmara nos píncaros efervescentes do escândalo do Mensalão.



O Navio Negreiro – Antônio Frederico de Castro Alves, com sucinta análise estrutural e semântica


1
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 
Brinca o luar — dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta. 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
— Constelações do líquido tesouro... 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas... 

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest'hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo — o mar em cima — o firmamento... 
E no mar e no céu — a imensidade! 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

Homens do mar! ó rudes marinheiros, 
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 

Esperai! esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 
.......................................................... 

Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar — doudo cometa! 

Albatroz!  Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.

Na primeira parte de O Navio Negreiro, os versos são decassílabos e, para manter a regularidade métrica, o autor serve-se, dentre outros recursos poéticos, da aférise, presente na palavra ‘Stamos. A estrofação é regular – isostrófico  –, constituindo-se de onze quartetos. No que se refere às rimas, alternam-se versos brancos com rimas cruzadas, ressaltando dois casos de rimas heterofônicas (borboleta x inquieta, na primeira estrofe, e poeta x cometa, na décima). Observa-se ainda o constante emprego da figura retórica denominada Prosopopéia, que consiste na atribuição de características humanas a animais ou serem inanimados, como, por exemplo, ocorre no verso Ali se estreitam num abraço insano, referindo-se ao céu e ao oceano.
Quanto ao conteúdo, degusta-se uma agradável e ricamente metafórica descrição poética do mar e do céu, ressaltando a sua majestosa amplidão e o abraço simbólico desses infinitos. Há uma vaga menção a um navio e a marinheiros, sempre em tom favorável e ameno, até que, nos dois quartetos finais, o “eu” poemático intriga-se com a fuga do barco e pede asas ao albatroz, ave que também pode ser tomada como símbolo do Condoreirismo, como ficou conhecida a terceira geração do romantismo brasileiro, menos egocêntrica e mais voltada para a problemática social. Com essas asas, o poeta, como a ave, poderia voar alto e enxergar longe – e assim descobrir por que razão o navio tentava escapar.
Vale registrar ainda que a ideia de navio em fuga é o primeiro indício do tema central a ser desenvolvido no poema, pois desde a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, o tráfico de escravos estava proibido e, portanto, os navios que o praticavam deviam fugir a qualquer olhar fiscalizador.


2
Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
As vagas que deixa após. 

Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
— Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 

O Inglês — marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir.. . 
O Francês — predestinado — 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir! 

Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga jônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu ... 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! ... 

Aqui, os versos são heptassílabos ou em redondilha maior. Mantém-se a isostrofia, compondo-se de quatro décimas (estrofes de dez versos). O esquema de rimas, no entanto, apresenta-se de forma bem mais complexa, havendo rimas alternadas, paralelas e contrapostas, no sistema “ababccdffd”. Na primeira estrofe, flagra-se ainda a presença de rimas ricas, pois constituídas a partir de palavras de diferentes classes gramaticais, a exemplo de veloz (adjetivo) e após (advérbio) ou mezena (substantivo) e acena (verbo).
Nesta parte, o “eu” poemático, mantendo o tom ameno do princípio do poema, inicia a declarar ser desimportante a terra de origem do marinheiro, porquanto o que este ama deveras são os ensinamentos do mar. Ainda assim, segue o narrador delineando as peculiaridades, reais ou lendárias, dos marinheiros oriundos de países como Espanha, Itália, Inglaterra, França e Grécia, para, por fim, asseverar que independentemente de onde eles venham, todos sabem colher nas ondas as músicas celestiais.
Cumpre destacar ainda que, nesta segunda parte de O Navio Negreiro, para justificar a condição de marinheiros natos atribuída aos ingleses, o poeta, inspirado, forja uma bela e original metáfora pela qual a Inglaterra é comparada a um barco ancorado no Canal da Mancha. Alude também ao célebre almirante Nelson, notável pelos triunfos navais contra as forças napoleônicas, e à batalha do Nilo, ocorrida na baía de Aboukir, norte do Egito. Assim, o poema reverbera a hegemonia naval britânica, inconteste notadamente nos séculos XIII e XIX, sem deixar de mencionar outras nações que outrora exceleram na arte da navegação marítima.


3
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! 
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 

Esta breve terceira parte compõe-se de apenas uma sextilha. Os versos são alexandrinos (dodecassílabos), encerrando rimas geminadas e opostas, no esquema “aabccb”.
Aqui é retomada a cena da primeira parte, com a diferença que, aproximando-se do navio fugitivo o olhar do narrador, muda-se o tom da declamação, passando da amenidade ao espanto e à repugnância, diante de algo medonho que é avistado.


4
Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! 

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!...  

Na quarta parte, tem-se novamente a isostrofia, com seis sextilhas simétricas, porém pela primeira vez no poema a metrificação não é uniforme, verificando-se a presença da heterometria, com quatro versos decassílabos a ostentar rimas paralelas e dois versos hexassílabos a encerrar rimas contrapostas agudas ou oxítonas, no esquema “aabccb”. De notar que a utilização da rima oxítona parece intensificar ainda mais a exaltação do poeta.
No plano do conteúdo, aqui é identificado o aludido navio, repleto de pessoas negras como a noite transportadas de forma desumana, acorrentadas, a suportar toda sorte de maus-tratos; são homens, mulheres, velhos, crianças cujos padecimentos remetem aos suplícios do Inferno descrito por Dante em sua A Divina Comédia. E o Satanás mencionado ao final tanto pode ser o próprio Demônio satisfeito com aquela perversidade, quanto uma metáfora para designar o capitão do navio, que no seu sadismo atroz, ordena aos marinheiros que recrudesça o açoitamento dos míseros negros.


5
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma — lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 

Aqui é retomada a estrofação da segunda parte, ampliada entretanto para nove décimas, retomando-se também a isometria em redondilha maior. Repete-se, igualmente, o esquema de rimas “ababccdffd”. Para sustentar a isometria, o poeta faz uso da síncope, como em cúm’lo, na penúltima décima. De salientar, apenas, a ausência esporádica de rimas, sendo brancos o primeiro e o terceiro versos da primeira, segunda e nona estrofes.
Nesta quinta parte, o “eu” poemático atinge os píncaros da exaltação e de modo reiterado clama e lança apóstrofes apaixonada e grandiloquentemente a Deus, ao mar, a tempestades, a tufões e a outras entidades naturais ou sobrenaturais – que tomem alguma providência, que se não permita mais que fatos tão horrorosos e degradantes da condição humana ainda ocorram perante o céu. Entre esses clamores, vai vislumbrando a vida pregressa dos pobres escravos em sua África natal, onde corriam livres, dormiam sem preocupações, caçavam animais selvagens, levavam a vida como lhes aprazia, até serem capturados à força e verem-se compelidos a dar adeus ao seu mundo, fazendo penosa jornada por terras agrestes até ao ponto de embarque. Muitos sucumbiam já nessa jornada inicial e eram abandonados a animais carniceiros. Após o embarque – segue denunciando o poeta – eram atirados nos insalubres porões de navios negreiros, no qual a maior parte dos cativos era privada da existência e onde os sobreviventes mantinham-se em constante sobressalto com o barulho dos corpos atirados ao mar.
Há ainda, para encarecer os versos, a alusão à passagem bíblica que narra os padecimentos de Agar e seu filho Ismael, vagando no deserto após serem expulsos por Abraão.


6
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

No epílogo, vê-se uma vez mais a preocupação formal do poeta com a regularidade métrica e estrófica. São três oitavas vazadas em decassílabos rigorosamente rimados, no esquema “abababcc”, em que há uma sequência de seis versos com rimas alternadas, encerrando-se com dois em rimas geminadas. Neste mesmo clássico esquema, também chamado de “oitava rima”, foram vazados todos os 8816 versos de Os Lusíadas, de Camões.
Voltando aos magníficos versos acima, vale frisar a belíssima aliteração em “b” cravada no segundo verso da segunda estrofe: Que a brisa do Brasil beija e balança.
Aqui, no plano semântico, o poeta vai identificar o verdadeiro patrocinador do repugnante espetáculo revelado nas duas partes anteriores – a nação que acoberta tal infâmia. Antiteticamente, com os mais belos e inspirados versos já destinados ao lábaro brasileiro, amaldiçoa a própria pátria, que promove a escravidão, pátria representada no poema pela bandeira, e, ao amaldiçoá-la, assevera que teria sido melhor a destruição dessa bandeira na guerra (provável alusão à Guerra do Paraguai, que acabara pouco antes, saindo-se o Brasil vencedor), que o seu uso para cobrir a ignomínia da escravidão. No final, conclama a Andrada (o patriarca da independência do Brasil) e Colombo (o descobridor da América) para que o primeiro arranque esse pendão dos ares e o segundo feche as portas dos seus mares... Serve-se o poeta da função conativa da linguagem, através do modo verbal imperativo, e assim apela aos heróis e vultos históricos que se ergam e ajam contra essa situação intolerável, com a mesma força e vigor, paixão e transportes d’alma, com os quais o poeta sublima em seus versos a defesa da liberdade e guerreia a opressão de seres humanos.



I-Juca-Pirama – Antônio Gonçalves Dias, com breve análise estrutural e semântica


CANTO I 

No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos - cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d'altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudes, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d'outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno d'um índio infeliz.

Quem é? - ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: - de um povo remoto
Descende por certo - d'um povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: - no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incumbem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira,
Entesa-se a corda de embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.

Entanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar.

O canto I é isométrico, pois seus versos apresentam uma só medida (hendecassílabos, onze sílabas métricas); é isotrófico (com estrofes regulares), consistindo em oito sextilhas; as rimas são paralelas e interpoladas, no esquema “aabccb”. De notar, ainda, a presença do recurso estilístico da aliteração em “s”, visível no verso são surdos, severos, sedentos de glória, acentuando a musicalidade do canto.
Trata-se de uma apresentação dos Timbiras, tribo de guerreiros valentes e de muitas virtudes, sobretudo bélicas, em função das quais subjugam e dominam as demais tribos da vizinhança. Um narrador em terceira pessoa, externo à história que se vai contar, exalta os Timbiras, os quais – reunidos em concílio no centro da taba, os mais idosos a conversar sobre eventos antigos, os mais jovens desejosos do início da festa que se prepara – comentam sobre um prisioneiro recentemente capturado na guerra. Mulheres azafamadas e ansiosas, posto acostumadas ao ritual cuja celebração aproxima-se, apressam-se na preparação do cerimonial e do prisioneiro, cujo corpo é pintado segundo o preceito, bem assim o corte do cabelo. No centro de tudo se acha o cativo, ainda não devidamente identificado, filho de tribo também não revelada ainda, mas que se deduz, pela correção de seus traços físicos, seja um guerreiro de estirpe digna da honrosa função antropofágica.


CANTO II

Em fundos vasos d'alvacenta argila
Ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa,
Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam,
Sentado está,
O prisioneiro, que outro sol no ocaso
Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo,
Mostra-lhe o fim
Da vida escura, que será mais breve
Do que o festim!

Contudo os olhos d'ignóbil pranto
Secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas
Do coração.

Mas um martírio, que encobrir não pode,
Em rugas faz
A mentirosa placidez do rosto
Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
No passo horrendo?
Honra das tabas que nascer te viram,
Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes
Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
Lá murcha e pende:
Somente ao tronco, que devassa os ares,
O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse,
Como viveu;
E o caçador que o avistou prostrado
Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes
Revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
Da fria morte.

Também este canto é isotrófico, composto de dez quartetos. Heterométrico, porque os versos possuem diferentes medidas, alternando-se em decassílabos brancos e tetrassílabos com rimas cruzadas. Desfilam pelos quartetos várias rimas ricas, a exemplo de estão/coração, faz/audaz e horrendo/morrendo.
Enceta-se a festa ou o ritual de sacrifício do prisioneiro e relata-se a sua postura firme e de altiva indiferença ante a aproximação da morte. Demonstrando a princípio estar despreocupado em relação ao que estar por vir, o valente cativo oculta no seu íntimo certo desassossego, o que provoca a reflexão do narrador, o qual se interroga pelo que se passa no âmago do coração do prisioneiro, que aparenta estar agora tomado de certo receio. Prossegue o narrador expondo, como se desse voz aos antepassados ameríndios, a cultura e as crenças supersticiosas ou religiosas daqueles povos, em especial a ressurreição dos fortes e destemidos em sítios de além-Andes.


CANTO III

Em larga roda de novéis guerreiros
Ledo caminha o festival Timbira,
A quem do sacrifício cabe as honras.
Na fronte o canitar sacode em ondas,
O enduape na cinta se embalança,
Na destra mão sopesa a iverapeme,
Orgulhoso e pujante. - Ao menor passo
Colar d'alvo marfim, insígnia d'honra,
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
Como que por feitiço não sabido
Encantadas ali as almas grandes
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
Serem glória e brasão d'imigos feros.

"Eis-me aqui, diz ao índio prisioneiro;
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
"As nossas matas devassaste ousado,
"Morrerás morte vil da mão de um forte."

Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
"Dize-me quem és, teus feitos canta,
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa
O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.

O canto III se apresenta em três estrofes, uma irregular com treze versos, um quarteto e uma sextilha. Os versos são decassílabos e, por não conterem rimas, são designados versos brancos.
Vai chegando ao final a preparação do prisioneiro para o sacrifício. Entra em cena o cacique Timbira, identificado pelo fraldão de penas (enduape), o tacape (iverapeme) e o colar d'alvo marfim, que é um colar repleto de dentes de guerreiros vencidos em batalhas. Reverbera aqui o poeta a crença indígena segundo a qual a alma dos heróis mortos encerrava-se nos seus dentes e ossos, de modo que o uso de semelhante colar, portando o espírito dos extintos guerreiros, fortalecia os vencedores.
O prisioneiro é trazido perante o chefe Timbira, que o incita a identificar-se (haja vista achar-se sozinho, sem tribo nem família, no momento em que fora dominado e aprisionado) e a cantar seus feitos. Ou, caso prefira, que se apreste a lutar por sua vida.


CANTO IV

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

Andei longes terras,
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes - escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Sem seus maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d'espinhos
Chegamos aqui!

O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só queria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossego
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego,
Qual seja - dizei!

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? - Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixa-me viver!

Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

Os versos são isométricos, em redondilha menor, de acentuado ritmo cantante; e, sendo mais curtos, intensificam a beleza extraordinária da conjunção das rimas com o ritmo acelerado e vibrante. Com o escopo de manter a isometria, o autor serve-se de recursos como a síncope, que consiste na contração da palavra, suprimindo-lhe algumas letras e fonemas, a exemplo do que acontece com a palavra inimigo, que no poema é grafada como imigo.
O esquema de rimas é bastante complexo: na sextilha inicial ocorrem rimas alternadas e versos brancos, do tipo “abcbdb”; a partir da segunda estrofe, há uma sequência de onze oitavas, com três rimas paralelas separadas por uma rima contraposta, no esquema “eeebeeeb”, “fffgfffg” e assim sucessivamente, até ao final deste canto.
No plano do conteúdo, aqui ocorre uma mudança da voz narrativa, porquanto o próprio prisioneiro, em primeira pessoa, em seu canto de morte, identifica-se como pertencente à tribo Tupi, narra alguns de seus feitos guerreiros, refere as lides sangrentas a que assistiu e em que tomou parte, diz das tribos impávidas que o destino caprichoso quis ver cair escravas de inimigos desleais e traiçoeiros – porém, contra a expectativa geral, pois todos aguardavam para ultimar o sacrifício e a degustação do cativo, este chora e implora pela vida, por amor do pai velho e cego que deixaria desamparado no mundo, asseverando, todavia, que é valente e voltará, tão logo seja morto seu pai, para cumprir o ritual a que, por tradição, estava sujeito.


CANTO V

Soltai-o! - diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pôde nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.
- Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,      
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
- És livre; parte.
                                 - E voltarei.
                                                                   - Debalde.
- Sim, voltarei, morto meu pai.
                                                                - Não voltes!
É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
- Acaso tu supões que me acobardo,
Que receio morrer!
                                                      - És livre; parte!
- Ora não partirei; quero provar-te
Que um filho dos Tupis vive com honra,
E com honra maior, se acaso o vencem,
Da morte o passo glorioso afronta.

- Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
O rebater do coração se ouvia
Precipite. - Do rosto afogueado
Gélidas bagas de suor corriam:
Talvez que o assaltava um pensamento...
Já não... que na enlutada fantasia,
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do velho pai a moribunda imagem
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! ingrato!
Curvado o colo, taciturno e frio,
Espectro d'homem, penetrou no bosque!

O canto V é alostrófico, pois as estrofes que o integram não são uniformes, sendo um terceto, uma sextilha e duas longas estrofes, de 11 e 24 versos. Apresenta estrutura isométrica, em versos decassílabos (embora, para marcar os diálogos, um mesmo verso ocupe duas ou três linhas). Quanto às rimas, são inexistentes, sendo, assim, versos brancos.
Retrata justamente o momento em que o chefe Timbira, em face do apelo à vida feito pelo Tupi, ordena que o soltem – não sem estarrecimento geral. Há um breve diálogo entre o cacique e o prisioneiro, este insistindo que é valente e voltará para cumprir o ritual após a morte do pai, sendo desacreditado pelo cacique Timbira, o qual apenas reitera, muito lacônico, que o cativo está livre e deve parti, pois interpretara o choro como covardia, pusilanimidade que o descredenciava a morrer e ser devorado no honroso ritual de canibalismo. Apesar de sentir-se ofendido, o Tupi, após rápido embate interior entre a honra perante os inimigos e o sentimento de obrigação para com o pai, curva-se triste ante a obrigação, não sem certo luto n’alma, e sai da aldeia Timbira como se já não passasse de um fantasma humano.


CANTO VI

- Filho meu, onde estás?
                                                  - Ao vosso lado;
Aqui vos trago provisões: tomai-as,
As vossas forças restaurai perdidas,
E a caminho, e já!
                                                  - Tardaste muito!
Não era nado o sol, quando partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!

- Sim, demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convém partir, e já!
                                                   - Que novos males
Nos resta de sofrer? - que novas dores,
No outro fado pior Tupã nos guarda?
- As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.
                                                    - Mas tu tremes!
- Talvez do afã da caça...
                                                    - Oh filho caro!
Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!... -
                                                     E com mão trêmula, incerta
Procura o filho, tateando as trevas
Da sua noite lúgubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéia fatal correu-lhe à mente...
Do filho os membros gélidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo: - foge, volta,
Encontra sob as mãos o duro crânio,
Despido então do natural ornato!...
Recua aflito e pávido, cobrindo
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Daquele exício grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Ele o via; ele o tinha ali presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dor passada, a previsão futura
E o presente tão negro, ali os tinha;
Ali no coração se concentrava,
Era num ponto só, mas era a morte!

- Tu prisioneiro, tu?
                                       - Vós o dissestes.
- Dos índios?
                              - Sim.
                                             -De que nação?
                                                                              -Timbiras.
- E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebraste a maça...
- Nada fiz... aqui estou.
                                             - Nada! -
                                                                              Emudecem;
Curto instante depois prossegue o velho:
- Tu és valente, bem o sei; confessa,
Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo!

- Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia...

- E depois?...
                             -Eis-me aqui.
                                                            -Fica essa taba?
- Na direção do sol, quando transmonta.
- Longe?
                        - Não muito.
                                                       - Tens razão: partamos.
- E quereis ir?...
                                    - Na direção do ocaso.

Os versos também são decassílabos brancos, conquanto por vezes ocupem mais de uma linha, mercê da marcação do tenso diálogo entre pai e filho.
O filho reencontra o pai na floresta e tenta disfarçar e ocultar dele os fatos ocorridos perante os Timbiras, mas, enquanto lamenta os infortúnios sobre si e o filho caídos, o pai, arguto e demonstrando fineza de observação, apesar da cegueira e avançada idade, vai aos poucos percebendo – embora não inteiramente – o que acontecera ao filho, principalmente ao sentir o marcante cheiro das tintas que este trazia no corpo e ao constatar a ausência de cabelos. Porém, como sabe que o rebento é impávido, fica intrigado com o fato de ele ainda estar vivo e pede que se encaminhem na direção do pôr-do-sol – rumo à aldeia Timbira.
De notar, ainda, a distinção no tratamento verbal. Enquanto o “tu” é empregado pelo pai para dirigir-se ao filho, este, por seu turno, usa o “vós” (tratamento cerimonioso) para endereçar-se ao pai.


CANTO VII

"Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedestes
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis, - e mas foram
Senhores em gentileza.

"Eu porém nunca vencido,
Nem nos combates por armas,
Nem por nobreza nos atos;
Aqui venho, e o filho trago.
Vós o dizeis prisioneiro,
Seja assim como dizeis;
Mandai vir a lenha, o fogo,
A maça do sacrifício
E a muçurana ligeira:
Em tudo o rito se cumpra!
E quando eu for só na terra,
Certo acharei entre os vossos,
Que tão gentis se revelam,
Alguém que meus passos guie;
Alguém, que vendo o meu peito
Coberto de cicatrizes,
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por pai se ufane!"

Mas o chefe dos Timbiras,
Os sobrolhos encrespando,
Ao velho Tupi guerreiro
Responde com torvo acento:

- Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto. -

Do velho Tupi guerreiro
A surda voz na garganta
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre,
Que pouco a pouco se assanha!

No sétimo canto os versos são novamente brancos, em redondilha maior, composto de sete sílabas métricas ou heptassílabos. A estrofação é irregular.
Aqui, trava-se um diálogo solene entre o chefe Timbira e o velho tupi. Este, convicto do pundonor do filho, atribui a libertação deste a um ato de alta cortesia dos Timbiras para com sua condição de idoso cego. Não obstante, como também ele fora um guerreiro brioso, apresenta o filho à imolação. É desiludido, todavia, pelo cacique Timbira, que lhe assevera ter o jovem guerreiro Tupi chorado de covardia, restando inapto ao rito destinado apenas aos prisioneiros fortes.


CANTO VIII

"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.

"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!

"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.

"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas como asco e terror!

"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E o oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.

"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d'argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."

Os versos também são isométricos, compostos de nove sílabas métricas ou eneassílabos. O esquema de rimas igualmente encerra muita beleza e complexidade, com a presença do verso branco e de rimas alternadas, paralelas e contrapostas, seccionando o canto em seis oitavas e mantendo-se a regularidade no esquema “abacdeec”, (em que o 2º e o 5º são versos brancos, o 1º e o 3º constituem rimas alternadas, o 6º e o 7º formam rimas paralelas e o 4º e o 8º podem ser interpretados como rimas contrapostas).
Novamente em discurso direto, o oitavo canto é todo dedicado à terrível maldição do filho pelo pai, que, em suas impressionantes imprecações, clama que seu filho não encontre amor nas mulheres, nem doçura no dia, nem descanso para corpo, nem sossego para o espírito, enfim, pelo temível e assustador amaldiçoamento, o filho estaria condenado a não usufruir jamais nenhum bem ou prazer da existência. O contexto em que proferida a maldição é o da suposta cobardia do filho, jovem guerreiro Tupi, em face da morte.


CANTO IX

Isto dizendo, o miserando velho
A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservara,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho pára!
O grito que escutou é voz do filho,
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!
- Esse momento só vale apagar-lhe
Os tão compridos trances, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera,
Tomado pelo súbito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, enovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se acende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem.
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,
Aturado labor de tantos anos,
Derradeiro brasão da raça extinta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.
- Basta! clama o chefe dos Timbiras,
- Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. -

O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
"Este, sim, que é meu filho muito amado!
"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
"Corram livres as lágrimas que choro,
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."

Os versos são decassílabos brancos; as estrofes, irregulares.
 No nono canto, o pai está moralmente prostrado depois de amaldiçoar o filho em sua pretensa cobardia, quando ouve o grito de guerra do jovem Tupi – alarma! O filho lança-se contra os Timbiras, vai desferindo golpes, matando uns, malferindo outros tantos, levando alvoroço e desespero à aldeia. O chefe Timbira ordena que cessem os combates, reconhecendo, enfim, a força e o caráter heroico do último guerreiro Tupi, dignificado, pela bravura súbita e insofismavelmente demonstrada, a passar pelo honroso rito. Então o velho, abraçando o filho, chora lágrimas que não desonram, pois de enternecimento pela valentia do filho e não por medo da morte.


CANTO X

Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!
"Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest'hora diante de mi.

"Eu disse comigo: Que infâmia d'escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!"

Os versos são heterométricos, compostos de 11 e 05 sílabas métricas mescladas.
No último canto, o narrador inicial, para dar maior verossimilhança à lenda motivadora do poema, invoca o testemunho de um velho Timbira, que resume os fatos por si presenciados, de que guardara na memória a viva impressão. Com efeito, um jovem guerreiro fora feito prisioneiro pelos Timbiras e deveria morrer em ritual antropofágico (aliás, o título do poema, I-Juca-Pirama, significa algo como “o que deve morrer”) e, mesmo sendo corajoso e destemido, implorou pela vida, como se fora um ser aviltado e fraco. Fê-lo, porém, em razão do seu amor ao velho e cego pai, no que foi atendido pelo cacique Timbira, que só dos fortes fazia pasto. É tido como cobarde, mas logo revela todo o seu valor, força e bravura de verdadeiro herói, resgatando a estima do pai e alcançando o direito ao desenlace com honra.
Cumpre ainda destacar que neste como nos demais cantos do I-Juca-Pirama há um tratamento idealizado do índio, característica marcante desta vertente do romantismo brasileiro, o qual idealismo, entretanto, não tem o condão de obnubilar o brilhantismo do gênio do nosso Gonçalves Dias e deste sublime poema.